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Viva o barulho luso-brasileiro!

Ainda a propósito da «língua geral» de Agualusa

«Fica muito mais fácil ganhar o aplauso de alguns leitores brasileiros ao estereotipar o português como retrógrado e preconceituoso

O novo artigo intitulado "O português, o brasileiro e o divã" (03/06/2026) do jornalista Sérgio Rodrigues recorre a algumas falácias marotas.

E a galera cai, porque não importa a lógica nem a verdade, mas sim aquela sensação gostosa de intelectualidade festiva que o sofisma carrega consigo.

Visto que Rodrigues cita o português Rui Tavares como contraponto em seu artigo, nada mais justo do que deixar aqui os dois links para você confrontá-los e ver quem tem a razão:

Rui Tavares, "Conheça a língua que não sabia que era a sua: o ãoinhês...", Folha de S. Paulo, 02/06/2026 – https://acesse.one/38lrx8a
Sérgio Rodrigues,  "O português, o brasileiro e o divã", Folha de S. Paulo, 03/06/2026 – https://l1nk.dev/wzypab2

Só para situar brevemente você, caro leitor, eis o que defende Tavares em seu texto: ele escreve um texto bem-humorado tentando aproximar as duas variedades (o português europeu e o português brasileiro), porque ambas são a mesma língua. Com efeito, rebate toda essa discussão sobre nomes e identidades contra os quais uma ala da linguística brasileira se debate; ou seja, para ele, isso tudo é energia desperdiçada, é um problema fabricado essa questão de «ai, a língua brasileira...». É tipo assim: «Supera, vira o disco, há coisas mais importantes a tratar».

Agora, sim. Eis alguns excertos problemáticos do texto de Sérgio Rodrigues:

1. «Que o português brasileiro tem sua própria norma, distinta da lusitana, é fato indiscutível. Em contraste com o que ocorre no inglês e no espanhol, com histórias inteiramente diversas, nenhuma tradução literária pode circular em ambos os países, o que é prova suficiente disso.»

Ao se valer do exagero retórico, o autor tenta fazer o português parecer um caso único no mundo para valorizar a sua tese. Só que isso é mentira. Caricatura. Lamento dizer a verdade. E basta dar um Google.

A palavra nenhuma – usada por ele – ignora, matreiramente, que textos jornalísticos, técnicos e acadêmicos (densos) circulam, sim, entre o Brasil e Portugal sem grandes problemas. E (adivinha?) todos os letrados de ambos os países se entendem, porque a norma culta escrita de ambos é simílima – já fiz esse levantamento, a quem interessar possa. Além disso, nos universos editoriais de língua inglesa ou espanhola, há traduções adaptadas para as diferentes normas dos países de língua pluricêntrica, ainda que em grau menor do que entre Brasil e Portugal.

2. «A verdade é que a coisa é séria, questão cultural de fundo da sociedade brasileira, com impacto trágico na alfabetização precária de dois terços da população...»

Aqui há uma falsa causalidade, sem provas. No contexto deste trecho, o autor tenta colar a péssima alfabetização brasileira na insistência das escolas em ensinar as supostas regras gramaticais antigas de Portugal – infelizmente, Rodrigues comprou as ideias de Bagno e Faraco. Mas, na boa, qualquer especialista em educação sabe que o Brasil alfabetiza mal por razões socio-históricas e socioeconômicas profundas, como se confirma nos livros de Celso Cunha (Língua Portuguesa e Realidade Brasileira), de Gladstone Chaves de Melo (A Língua do Brasil), de Sílvio Elia (A Unidade Linguística do Brasil), de Serafim da Silva Neto (Introdução ao Estudo da Língua Portuguesa no Brasil) etc.

3. «É o que Tavares sugere em forma de piada, provando que, no país europeu que vai mais atrasado na autocrítica do colonialismo, a língua é um tema em que progressistas e reacionários podem se irmanar.»

Em vez de pegar os argumentos que Rui Tavares usou e desmenti-los com dados, Sérgio Rodrigues prefere carimbar por metonímia o crítico como uma espécie de «colonizador atrasado que faz piada com as dores do Brasil». Essa acusação genérica de Rodrigues cria uma antipatia e uma animosidade que só alimenta a base de fãs – fica muito mais fácil ganhar o aplauso de alguns leitores brasileiros ao estereotipar o português como retrógrado e preconceituoso.

4. «No entanto, 204 anos após a independência, nosso senso comum ainda chama a norma brasileira de "erro". Diz que somos burros, incapazes de aprender as lusas ênclises, apegados a gerúndios e preposições bárbaras.»

Não é a norma brasileira que é "erro": qualquer norma de qualquer país de cultura é sentida pelos falantes escolarizados como erro quando se desvia da norma culta daquele mesmo país. Isso acontece em qualquer lugar: Portugal, Brasil, Inglaterra, EUA, Espanha, Argentina, etc. Quem defende que a escola continue ensinando a norma-padrão tradicional não faz isso por "complexo de vira-lata" ou amor a Portugal. O argumento real é de inclusão social: como as leis, os vestibulares, os contratos, os textos literários e não literários do português brasileiro (!) usam a norma-padrão tradicional, privar os alunos da periferia desse aprendizado sob o pretexto de «valorizar a língua brasileira» é, na verdade, sonegar-lhes a ascensão sociocultural e socioeconômica. Rodrigues cria uma caricatura maldosa do defensor da gramática para fazer a sua própria posição parecer a única humanista possível.

Por fim, já que Sérgio Rodrigues defende que o "português brasileiro" é diferente do "português lusitano", deixo-lhe aqui uma pergunta:

– Ainda que sejam simílimas, o Brasil e Portugal têm a sua própria norma-padrão (extraída da norma culta escrita). Ok. Ninguém discorda disso, porque é um fato. No entanto, quais estudos comprovam que as diferenças dessas normas-padrão são um abismo em comparação com o grau de diferenciação encontrado nas normas-padrão de outras línguas pluricêntricas, como o espanhol (Espanha x Argentina) e o inglês (Inglaterra x EUA)?

P.S.¹: Sérgio Rodrigues foi o prefaciador da obra Gramática do Português Brasileiro Escrito (Faraco e Vieira, 2023). E, por isso, lhe(s) recomendo a leitura deste artigo acadêmico:  https://share.google/vCcgezVEnGSKaernM

P.S.²: Também recomendo a leitura deste livro: https://share.google/cZZNH1LSQE3pcdLzy

Fonte

Texto incluído no mural do autor no Facebook em 4 de junho de 2026.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa