Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Sobre os verbos copulativos (ou predicativos)

Cegalla cita, como exemplo de predicativo do sujeito, a frase «A vida tornou-se insuportável''»(pág. 343). No entanto, logo depois, utiliza a frase «Silvinho acha-se um gênio' (pág. 344) como exemplo de predicativo do objeto.

Qual a diferença entre as construções a ponto de modificar o predicativo?

Na minha análise, as duas possuem predicativos que se referem tanto ao sujeito quanto ao objeto 'se', o qual tem sentido reflexivo. Além disso, 'acha-se' e 'torna-se' são igualmente citados como verbos de ligação (pág 339 e 340). Está certa ou errada a minha lógica? Caso eu esteja correto, há um nome específico para semelhante caso?

Henrique Caires Estudante Belo Horizonte, Brasil 3K

A Gramática da Língua Portuguesa (Maria Helena Mira Mateus, et al.,Lisboa, Caminho, 2003) indica a seguinte lista exemplificativa de verbos copulativos – também denominados predicativos, de cópula ou de ligação: andar1, continuar1, estar, ficar, parecer, permanecer, revelar-se, ser, tornar-se.

Também o Dicionário Terminológico da Língua Portuguesa, para exemplificar a definição de verbos copulativos, indica os verbos copulativos mais conhecidos: «Verbo que ocorre numa frase em que existe um constituinte com a função sintática de sujeito e outro com a função sintática de predicativo do sujeito. Costumam listar-se como verbos copulativos os seguintes: ser, estar, ficar, parecer (como em "parecer doente"), permanecer, continuar (como em "continuar calado"), tornar-se e revelar-se.»

Assim, a frase que cita, ''A vida tornou-se insuportável'',  insere-se nos exemplos da lista de verbos  copulativos apresentados nas obras referidas.

Por outro lado, há os verbos  transitivo-predicativos : “Diz-se do verbo que seleciona um complemento direto e um predicativo do complemento direto (é o caso do verbo achar na frase: Achei-a muito simpática.) (in Infopédia , Porto Editora, 2003-2014). “a” é o complemento direto e “muito simpática” é o predicativo do complemento direto.

Na frase «Eu  acho  alguns locutores  muito vaidosos.» os elementos sublinhados constituem o predicado: alguns locutores é o complemento direto, e muito vaidosos, o predicativo do complemento direto.

O predicativo do complemento direto é a função sintática desempenhada pelo constituinte selecionado por um verbo transitivo-predicativo, que predica (1) (atribui) algo acerca do complemento direto. Na frase acima essa predicação (atribuição) é "muito vaidosos" que se aplica ao complemento direto "alguns locutores".  

 

Nota:

Assim como o complemento direto é selecionado pelo verbo (transitivo direto), são também «selecionados pelo verbo os predicadores secundários com a relação gramatical de predicativo do sujeito [quando tal verbo pertence à subclasse dos verbos copulativos] e de predicativo do complemento direto, quando o verbo pertence à subclasse dos verbos transitivo-predicativos ou quando se trata de construções resultativas»

(Mira Mateus et alii, Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa, Caminho, 2003, p. 290).

Exemplos:

A Ana considera a mãe uma ótima cozinheira.

O poeta julga-se  um visionário.

O Jorge acha a Teresa  bonita.

Eu acho isto tudo  muito estranho.

                       

Nestes exemplos, os verbos achar e julgar-se são transitivo-predicativos, selecionando o predicativo do complemento direto, que corresponde a uma ótima cozinheira, um visionário, bonita e muito estranho

Consideram-se verbos predicativos-copulativos os verbos:

considerar, julgar, ver, achar, suspeitar, nomear, declarar, designar, eleger, fazer, julgar, supor, ter por, tornar, tratar, sonhar, imaginar.

   As listas não são exaustivas, porque,  por vezes, um verbo pode assumir uma significação que permita ou exija um predicativo do complemento direto.

Quanto à frase ''Silvinho acha-se um gênio''  como exemplo de predicativo do objeto, o verbo achar, conjugado de forma reflexiva (=julgar-se) tem a função de transitivo-predicativo, selecionando o predicativo do complemento direto, como o exemplo citado «O poeta julga-se um visionário.»

 

1Os verbos andar e continuar nem sempre funcionam como ligação entre o sujeito e o predicativo do sujeito, pois tudo depende do valor/sentido que tenham num determinado enunciado. Por isso, só em alguns casos é que podem ser classificados como copulativos, o que acontece quando podem ser substituídos por estar e permanecer. Por exemplo, nas frases «Eu andei muito preocupado» e «Continuamos silenciosos», os dois verbos têm o valor de copulativos.

Maria Eugénia Alves