O Galego e o Português são a mesma Língua? - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
O Galego e o Português são a mesma Língua?
Perguntas portuguesas sobre o galego
Marco Neves
Através Editora, 2019 2K   

Este pequeno livro, de cerca de 130 páginas, retoma o (discreto) contraponto português na discussão da profunda afinidade linguística luso-galaica, num momento em que se encara o futuro do galego com muita apreensão. Insere-se, portanto, numa história já longa, embora com não muitos intervenientes em Portugal. Entre estes, destacaram-se inicialmente filólogos e linguistas como Teófilo Braga (1843-1924) e Leite de Vasconcelos (1858-1941), a que se seguiu Rodrigues Lapa (1897-1989), certamente o português que até aos anos 70 deu ao debate o contributo mais estruturado, até do ponto de vista político. As décadas seguintes veriam em Portugal a recondução do galego às balizas da história medieval da língua e à aceitação do seu estatuto de língua autónoma e diferenciada do português, por exemplo, no trabalho de Ivo Castro, profundo conhecedor da Galiza; noutra perspetiva, Fernando Venâncio daria a energia polémica à abordagem do tema já no presente século. Procurando responder à questão que dá título ao seu próprio livro, Marco Neves, tradutor e professor universitário, inclui-se, portanto, nesta linhagem; e, se, por momentos, chega a dar a impressão de voltar aos tempos de Rodrigues Lapa, depressa mostra que a sua posição é bem diferente.

O prólogo é do linguista João Veloso, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que, fazendo seu o apelo a uma aproximação capaz de ultrapassar uma velha e caricata atitude portuguesa, considera: «Grave é que, quando um galego tenta falar galego em Portugal, lhe respondamos em portunhol» (p. 17). Seguem-se as nove secções que organizam este livro, indo da apresentação do problema linguístico galego, que muitos portugueses desconhecem ainda, à justificação do interesse que o tema terá para eles. Pelo meio, fazem-se considerações sobre as diferentes vertentes da questão, a saber: os conceitos de língua e dialeto (pp. 29-31); a utilidade do galego (pp. 33-40); a história das línguas da Península Ibérica (pp. 41-78); a ortografia galega entre o contacto prolongado com o castelhano e o estímulo diferenciador do português (pp. 79-84); o galego como questão política (pp. 85-94); a proposta binormativa para este idioma (pp. 95-100); e as forças centrífugas e centrípetas num sistema linguístico que ainda se pode chamar galego-português (pp. 101-119).

Toda a obra tem uma estrutura conversacional: as perguntas são as da voz do típico português, perplexo e desconfiado com a situação linguística a norte do Minho e com a diversidade de línguas e dialetos no território hoje espanhol; as respostas são dadas por quem está manifestamente interessado no futuro do galego, ao argumentar, já nos últimos parágrafos deste livrinho, que «sem dificuldade, [nós, os portugueses] podemos aceder a outra literatura e conversar sem mudar a maneira de falar, com milhões de vizinhos – ficamos mais próximos de boa gente, boa literatura, boa conversa e boas oportunidades» (pp. 122-123). O tom do discurso dos interlocutores é sempre ágil, quase coloquial. Para rematar, um brevíssimo texto intitulado “Ideias de leitura” deixa referências já publicadas ou a publicar, que ajudarão a compreender melhor a situação linguística da Galiza.

Por último, é de realçar que este livro surge no quadro de ação da editora galega Através, a qual tem lançado nos últimos anos um conjunto de trabalhos de autores decididamente escritas numa modalidade reintegracionista, ou melhor, naquilo a que se chama «a variedade galega da língua» noutras obras da mesma chancela (caso de Sobre Conflito Linguístico e Planificação Cultural na Galiza Contemporânea). Com o texto redigido por Marco Neves produz-se uma curiosa inversão, em que se declara que o texto está «numa variedade portuguesa da nossa língua», que é como quem diz em português europeu, aparentemente não excluindo que a «nossa língua» também seja a galega. Trata-se, sem dúvida, de uma proposta arrojada e, certamente, controversa, a de considerarmos em comunidade os usos vernáculos a norte e a sul do Minho. Marco Neves não teme o desafio (a provocação?) e junta às perguntas anunciadas pelo subtítulo deste livro estimulante uma série de respostas que suscitam com certeza ainda mais questões. Que sirvam todas elas, perguntas e respostas, para cada vez mais leitores portugueses partirem à descoberta da cultura linguística da Galiza e reverem algumas ideias feitas sobre a própria língua portuguesa. 

 

CfQual a origem das línguas ibéricas?

 

Carlos Rocha