O português numa encruzilhada, flanar, marca pluralizada, bênção, pronomes pessoais e uso de há
1. Em Portugal, continua a polémica à volta de restrições sobre o uso do inglês na Universidade Nova de Lisboa (ver Abertura de 13/02/2026), com vários artigos de opinião, pró e contra, a circularem nos media. Há quem considere que o reforço do uso universitário do português pode prejudicar a internacionalização de várias faculdades em diferentes áreas do saber e da ciência, nas quais o inglês é veículo de noções e conceptualizações sempre mais complexas (ver "Nova SBE: o futuro não espera por quem fica preso no passado", Público, 18/02/2026). Na visão de outros, a hipertrofia do inglês afeta a capacidade de comunicação científica do português. A mesma situação é certamente sentida noutros países de língua portuguesa, mas, no Brasil, nada parece ultrapassar os antagonismos gerados por outra discussão que se desenrola em duas vertentes estreitamente relacionadas: a erosão da unidade da língua, que, na perspetiva de Marcos Bagno (ver Facebook, 19/02/2026) e outros linguistas, é cada vez mais posta em causa por fenómenos de variação na fala; e a questão da descrição e classificação da gramática tradicional, cuja atualidade é energicamente defendida por Fernando Pestana num artigo de opinião transcrito em Controvérsias. Trata-se, portanto, de uma encruzilhada, talvez à espera de um rumo, seja ele qual for, para a língua portuguesa dentro e fora dos países que lhe dão estatuto oficial.
2. Fala-se muito da pressão do inglês, mas há mais de 100 anos era o francês a língua que invadia o léxico, a morfologia e a sintaxe do português. Os gramáticos normativistas afadigavam-se a assinalar galicismos de vária ordem no que se escrevia na imprensa da época, como foi caso de Cândido de Figueiredo (1846-1925), autor de Os Estrangeirismos (1902). Atualmente, os galicismos ganham aura nostálgica, como o verbo flanar, diretamente adaptado do francês flâner, que significa «andar sem destino». Com base neste verbo, deriva-se flâneur, que passou ao português sem qualquer adaptação, tal como acontece no livro apresentado pela professora universitária e escritora Dora Nunes Gago na rubrica Literatura: O flâneur de Paris, de João B. Ventura.
O contacto com uma língua estrangeira hegemónica como o francês inspira, portanto, e até favorece o desenvolvimento da consciência da língua materna. É experiência que se pode documentar na biografia de vários criadores, e para o ilustrar, registem-se algumas palavras da jornalista e escritora Anabela Mota Ribeiro, retiradas do discurso que elaborou para a cerimónia do grau de doutor honoris causa atribuído em 08/10/2025 ao cantor e compositor Sérgio Godinho pela Universidade da Beira Interior: «O uso de uma língua estrangeira na qual estava imerso [Sérgio Godinho] possibilitava ainda um afastamento de nomes de referência, como Zeca Afonso. Escrever em francês facilitava o ofício: para que as canções não soassem a Zeca Afonso. Porém, a descoberta de uma identidade autoral, como quem se encontra com o seu idioma próprio, aconteceu num reencontro com a língua portuguesa. Foi isso que lhe permitiu relacionar-se consigo de um modo vital, escutar a ressonância afectiva que as palavras tinham nele, desapertar nós da memória, conhecer o coração da palavra, o seu significado mais íntimo» (texto completo em "Doutor Sérgio Godinho", na página da autora).
3. O ato de benzer é denotado por duas palavras sinónimas, bênção e bendição. Significarão elas exatamente o mesmo? No Consultório, esclarece-se este caso bem como outros divulgados entre 16 e 20/02/2026: a (in)distinção entre mau e mal; o que explicativo; os anglicismos laptop e notebook; os topónimos Dublim (Irlanda) e Memória (Leiria); bruxa como designação de um crustáceo; um modificador restritivo do nome território.
4. Quando uma marca comercial se converte num nome comum, a gramática depressa impõe moldes e regras. É o caso de Sumol, nome de uma marca de refrigerantes muito popular em Portugal, a ponto de designar muitas vezes esse tipo de bebida. Em O Nosso Idioma, Sara Mourato dá conta de uma campanha publicitária que tira partido dos usos de sumol no plural.
Outros artigos também colocados em linha entre 16 e 20/02/2026: "O comparativo de inferioridade do adjetivo bom", "Anormal, abnormal e anómalo", "'Ficamos sem nada...' ou 'ficámos sem nada'".
5. Temas das rubricas em vídeo do Ciberdúvidas: em Ciberdúvidas Responde (60.º episódio), justifica-se o uso correto dos pronomes pessoais átonos o/a e lhe; e, em O Ciberdúvidas Vai às Escolas, retoma-se o 1.º episódio, dedicado à forma verbal há e aos seus contextos de ocorrência.
6. Registe-se um neologismo, fazendo eco da reação dos EUA e de outros países às declarações de Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para os Direitos Humanos nos Territórios Palestinianos, ao canal de televisão Al Jazeera: memoricídio, termo empregado pelo historiador Manuel Loff para se referir às ações de supressão também cultural de que Israel é acusado na Faixa de Gaza e na Cisjordânia ("Um crime coletivo", Público, 18/02/2026).
7. Sobre Língua de Todos e Páginas de Português, programas que a Associação Ciberdúvidas da Língua Portuguesa produz para a rádio pública portuguesa, toda a informação está disponível na página principal e nas Notícias.
