«Ficamos sem nada»... ou «ficámos sem nada»?
Um caso de acentuação
O arranque de 2026 ficou marcado em Portugal por dois acontecimentos de grande visibilidade: as eleições presidenciais e as cheias que, no início de fevereiro, atingiram vários pontos do país. Durante alguns dias, a força da água sobrepôs-se ao debate político e ocupou o espaço noticioso. Numa notícia publicada na SIC Notícias, canal noticioso português, lia-se o desabafo de moradores: «ficamos sem nada».
E a língua, discretamente, colocava uma questão: ficamos… ou ficámos?
A diferença cabe num acento, mas não é irrelevante. No Acordo Ortográfico de 1990 (Base IX – 4) lê-se que «é facultativo assinalar com acento agudo as formas verbais de pretérito perfeito do indicativo, do tipo amámos, louvámos, para as distinguir das correspondentes formas do presente do indicativo (amamos, louvamos), já que o timbre da vogal tónica é aberto naquele caso em certas variantes do português». Ou seja, a norma admite a possibilidade de marcar graficamente a distinção entre o presente (ficamos – agora) e o pretérito perfeito (ficámos – naquele momento) dos verbos da primeira conjugação. Em Portugal, essa distinção tem sido mantida, precisamente para evitar ambiguidades, muito embora a ortografia vigente a isso não obrigue.
Portanto, num contexto jornalístico, essa clareza torna-se particularmente relevante. Um título como «ficamos sem nada» pode sugerir um estado que ainda se prolonga; «ficámos sem nada» situa o acontecimento no momento das cheias. A diferença é temporal, mas também interpretativa: informa o leitor sobre o enquadramento da ação.
Neste caso, a ortografia é um recurso que ajuda a organizar o tempo do discurso e a tornar mais claro o que acontece e quando aconteceu.
