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Textos de autores lusófonos sobre a língua portuguesa, de diferentes épocas.

1

De palavras novas também se faz país

neste país tão feito de poemas

que a produção e tudo a semear

terá de ser cantado noutro ciclo.


2

É fértil este tempo de palavras

em busca do poema

que foge na curva das palavras

usadamente soltas e antigas

distantes das verdades dos rios

do quente necessário das brasas

do latejar silencioso das sementes

dentro da terra

quando chove.


3

Proponho um verso novo

para as laranjas (por exemplo) matinais

e os namorados

com que havemos de encher todos os dias

os mercados.


4

Por Ondjaki

Porque a História também se faz ao contrário, o caçador quando pressente o perigo é tarde demais e saiu já caçado, num golpe de futura sorte ou carnaval linguístico; e o oceano, quintal vasto e multiplicador de margens, convida a viagens com direito a retorno melhorado e banquete renovador. Depois dos gestos, a linguagem falada é a boca sincera dos sentimentos e a cultura apanha boleia para ir mais longe, enfeitiçar outros mundos e mascarar-se de novos conteúdos.

As crianças praticam a língua como se esticassem fios de seda para prender os perímetros da vida e com os fios que sobram encontram tempo para enrolar devagarinho em bola de jogar sobre a terra húmida que ajudam a arrendondar com os pés pequenos.

"(...)Português, irmão, é difícil mas não custa"
(Lourentinho, personagem de um livro de
José Luandino Vieira)

"Pela voz da mãe eles conhecem a mãe deles..."
(Provérbio cabinda)

     Há nas nossas relações com a língua materna um certo efeito almofada que, como a mão fresca das mães nas nossas infâncias febris, amortece a queda, suaviza a dor.

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     Uma espécie de escuridão escapava-se dele, como de um abismo, enquanto declamava Cruz e Sousa:

     “Vozes veladas, veludosas vozes,
     volúpias dos violões, vozes veladas
     vagam nos velhos vórtices velozes
     dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.”

     A Fernando Pessoa, esse, amava-o ainda com maior fervor. A ele e a toda a sua legião de heterónimos. Rezava-os:

Surpreendo-me discorrendo sobre alguns mitos emergentes na sociedade angolana, sem rumo certo e em desfrute de lentos vagares, mas logo me deixo enlear por coisas de somenos, pequenas dúvidas, questões teóricas. Será que esses mitos, sobre os quais me debruço, existem mesmo antes de serem nomeados, ou apenas passaram a existir por terem sido nomeados?

Regressei há poucos dias de Paris, onde estive a convite do Festival Atlântida, uma iniciativa, já na segunda edição, que se propõe divulgar em França a literatura e a música dos países de língua portuguesa. Havia cinco escritores portugueses, cinco africanos e um brasileiro.

A escola de Catete não tinha mestre. A professora, que diziam ser de Lisboa, teria alegadamente fugido para Luanda para não mais voltar à vilinha do interior em que a administração colonial a depusera. Teria ficado, de início, assustada e, depois, farta da vida pelas terras do vasto mato angolano.

Por Pepetela

Quando pensamos numa língua muitas vezes a vemos da forma sisuda que na escola nos ensinaram a encará-la, com aquelas regras chatíssimas de gramática que parecem talhar um fato apertado que a sufoca. Afinal essas regras podem não ser tão antigas assim e dependem das brincadeiras que fazemos com a língua. E as influências que estão por trás de muitas modificações nem sempre são conhecidas de todos os utentes.

Vou exemplificar apenas com algumas palavras que a maior parte dos falantes do Portugu...