Poesia Necessária - Antologia - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Poesia Necessária

1

De palavras novas também se faz país

neste país tão feito de poemas

que a produção e tudo a semear

terá de ser cantado noutro ciclo.


2

É fértil este tempo de palavras

em busca do poema

que foge na curva das palavras

usadamente soltas e antigas

distantes das verdades dos rios

do quente necessário das brasas

do latejar silencioso das sementes

dentro da terra

quando chove.


3

Proponho um verso novo

para as laranjas (por exemplo) matinais

e os namorados

com que havemos de encher todos os dias

os mercados.


4

Proponho um verso novo

para as guelra do peixe sem contar

para a abundância da carne

e a liberdade das aves desenhada

no amor das escolas

dos campos

e das fábricas.


5

Proponho um verso novo

para o leite obrigatório em cada dia

e a medalha olímpica

que o riso das crianças já promete.


6

Proponho um verso novo

para o milho a mandioca suculenta

o amadurecido cacho de dendém

alegre na fartura dos dedos

e das bocas.


7

Produzir na palavra

É semear e colher

É cumprir na escrita

A produção.


8

Produzir na palavra

É cantar no poema

Todas as raízes

Deste chão.


Manuel Rui

 

Fonte
In 11 Poemas em Novembro, Luanda, Ed. Lavra e Oficina, 1976

Sobre o autor

De seu nome completo, nasceu no Huambo (1941), Angola. Escritor, professor de literatura, jurista, cronista e guionista de cinema, tem várias obras publicadas no domínio da poesia e da prosa. Traduzido já para espanhol, francês, inglês, italiano, russo, romeno, checo, finlandês, árabe e hebraico, é autor, entre outros, de Quem me dera ser onda (1982), Crónica de um Mujimbo (1989), 1 Morto & Vivos (1993), Da Palma da Mão (1998) e Rioseco (1999).