O uso da vírgula com as conjunções porque e que - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
O uso da vírgula com as conjunções porque e que

Fiz diversas leituras (inclusive aqui), porém nada sanou a minha dúvida. Peço aos senhores um esclarecimento ou apenas uma referência para eu consultar.

O adjunto adverbial e a oração adverbial possuem o mesmo papel: modificador. Há autores até que chamam de adjunto adverbial em forma de oração (as orações adverbiais), até aqui, tudo bem! mas... quando vamos à pontuação que é o problema!

Os adjuntos adverbiais no final não são separados dos termos anteriores, as orações adverbiais também deveriam seguir a mesma Regra: "Não veste com luxo porque o tio não era rico." (Machado de Assis, OC, II, 204.)

Porém... A vida não é feita apenas de momentos bons: "Ceamos à lareira, que a noite estava fria." (A. Ribeiro, M, 44.)

Qual motivo das orações adverbiais na forma direta (após a principal), ora estão com vírgula, ora não?

Roberto Andrade Corne Junior Militar Rio de Janeiro, Brasil 42

O caso particular apresentado pelo consulente está relacionado com a colocação da vírgula no caso das orações subordinadas adverbiais causais e das orações coordenadas explicativas.

Em geral, podemos afirmar que, no âmbito das orações subordinadas adverbiais causais,

(i) a vírgula é usada quando a oração subordinada é colocada antes da subordinante:

                (1) «Dado que a comida chegou, vamos almoçar.»

(ii) a vírgula é usada também nas situações em que a oração subordinada intercala a subordinante:

                (2) «O João, porque se apercebeu da gravidade da situação, chamou os amigos.»

(iii) a vírgula é facultativa quando a oração subordinada adverbial causal é colocada após a subordinante:

                (3) «O João chamou os amigos(,) porque se apercebeu da gravidade da situação.»

A opção de colocação da vírgula poderá, por exemplo, estar relacionada com uma intenção de focalizar a causa ou com a existência de uma relação mais frouxa entre a causa e a situação expressa na subordinante.

As frases apresentadas pelo consulente convocam ainda outra questão: a distinção entre orações coordenadas explicativas (doravante, designadas como explicativas) e orações subordinadas adverbiais causais (doravante, causais). Assim, as causais apresentam uma causa real para a situação descrita na subordinante:

(4) «Não veste com luxo porque o tio não era rico.»

Na frase (4), o facto de o tio não ser rico é a causa efetiva de alguém não se vestir com luxo.

As explicativas, por seu turno, não apresentam uma causa real, mas antes uma causa de dicto, ou seja, a oração explicativa apresenta uma explicação ou justificação para o que foi dito na oração anterior:

(5) «Ceámos à lareira, que a noite estava fria.»

Em (5), a oração «que a noite estava fria» apresenta uma justificação para a decisão de «cear à lareira», não sendo plausível ser interpretada como a causa real desta ação.

As orações explicativas são precedidas de uma pausa entoacional que é assinalada por vírgula, pelo que este sinal de pontuação é obrigatório neste caso. Note-se que esta pausa pode não ocorrer com as subordinadas causais.

Disponha sempre!

 

Nota: Outros casos relacionados com o uso da vírgula podem ser estudados em Cunha e Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo. Ed. Sá da Costa, pp. 639-646 e também nas respostas relacionadas.

Carla Marques
Tema: Uso e norma
Áreas Linguísticas: Ortografia/Pontuação; Sintaxe Campos Linguísticos: Pontuação; Orações