Homónimos, homógrafos e vogais nasais - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Homónimos, homógrafos e vogais nasais

As palavras «(ele) mente» e «(a) mente» são homónimas ou homógrafas? Do meu ponto de vista, são homógrafas, uma vez que não as leio da mesma maneira.

Obrigada.

Dulce Helena Silva Rodrigues Professora Pinhel, Portugal 42

Do ponto de vista da pronúncia padrão do português de Portugal, as duas palavras em questão, que têm significados diferentes, são homónimas, isto é, são a um tempo homógrafas (têm a mesma grafia, ou seja, escrevem-se da mesma maneira) e homófonas (têm a mesma fonia, ou seja, pronúncia), como se infere das transcrições fonéticas disponíveis no Portal da Língua Portuguesa: mente (forma verbal de mentir) – [ˈmẽtɨ]; mente (nome) – [ˈmẽtɨ].

No caso da forma verbal mente, poderia supor-se alguma alteração fonética na modalidade padrão da língua, dado que, como forma conjugada de mentir, a sílaba men- recebe o acento tónico e tal seria causa para uma eventual abertura vocálica, tal como acontece com medir, que, na 3.ª pessoa do singular do presente do indicativo, mede, tem um e aberto. Contudo, se esse juízo pode ser válido para as vogais orais, já não o é para as vogais nasais, que, no padrão do português de Portugal, mantêm timbre fechado, sejam elas tónicas ou átonas. Por outras palavras, o [ẽ] do infinitivo mentir, [mẽˈtiɾ] não se altera quando figura em mente, [ˈmẽtɨ], 3.ª pessoa do singular do presente do indicativo, forma que tem, portanto, a mesma pronúncia que o nome mente, [ˈmẽtɨ], seu homónimo.

Acontece, porém, que, nos dialetos setentrionais portugueses, é possível encontrar um contraste entre a forma verbal em apreço e o nome mente. Com efeito, apesar de a consulente não dar mais pormenores sobre a distinção de que se apercebe, é plausível que, na variedade portuguesa que ela fala, sistemática ou esporadicamente, a sílaba tónica da forma verbal mente exiba um e aberto nasal, enquanto a do nome mente encerre um e fechado nasal – ou vice-versa. Esta vogal aberta nasal não é desconhecida nos dialetos setentrionais portugueses; por exemplo, regista-se na pronúncia de dentro, articulável com um e aberto nasal ou, até, uma vogal aberta oral seguida de consoante nasal1, o que em transcrição fonética corresponderá, respetivamente, a [ˈdɛ̃tɾu] e [ˈdɛntɾu]. Do mesmo modo, a grafia mente poderá corresponder às transcrições [ˈmɛ̃tɨ] , com e aberto nasal, ou [ˈmɛntɨ], com e aberto oral seguido de consoante nasal.

Em suma, a forma mente pode pronunciar-se de maneira diferente em «ele mente» e «a mente», em certas modalidades enquadráveis nos dialetos setentrionais do português de Portugal. Em regiões onde existe tal diferença, parece, portanto, adequado classificar tais palavras não como homónimas, mas, sim, como homógrafas. 

1 Cf. Maria João Freitas, Celeste Rodrigues, Teresa Costa e Adelina Castelo, em Os Sons Que Estão dentro das Palavras (Lisboa, Edições Colibri/Associação de Professores de Português, 2012, págs. 164/165. 

Carlos Rocha
Tema: Variedades linguísticas Classe de Palavras: quantificador
Áreas Linguísticas: Fonética; Morfologia Flexional Campos Linguísticos: Tempo/Modo/Pessoa/Número (verbos); Pronúncia