Os dialectos em Portugal - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Os dialectos em Portugal

Qual a forma correcta de escrever?

Em Portugal, para além do “mirandês”, há mais algum dialecto?

Confesso nunca ter lido nada sobre o assunto mas julgo não existirem mais nenhuns dialectos em Portugal, quer continental, quer nos arquipélagos dos Açores e/ou da Madeira.

As diferenças que existem entre os discursos das gentes de Lisboa, do Porto, do Alentejo, de Trás-os-Montes, das Beiras ou do Algarve, da Ilha da Madeira ou da Ilha de S. Miguel, etc., são muito mais de “sotaque”, de “calão” e de utilização de vocábulos e expressões muitas vezes até desconhecidos noutras regiões.

Não concebo, portanto, que numa faculdade de Letras, numa universidade se peça a uma aluna que apresente um trabalho sobre o dialecto lisboeta em confronto com os “alentejano”, “transmontano” e “tripeiro”.

Por favor elucidem-me se estiver errado.

Florival Espírito Santo Portugal 14K

A forma correcta é, de acordo com a ortografia do Português Europeu, dialecto e, de acordo com a ortografia do Português do Brasil, dialeto.

O termo dialecto é utilizado para variedades que definem uma zona relativamente abrangente. Neste sentido, há vários dialectos em Portugal (continental e ilhas). Apresenta-se, de seguida, o conjunto dos mais importantes:

Grupo dos dialectos setentrionais:

– dialectos transmontanos e alto-minhotos;

– dialectos baixo-minhotos, durienses e beirões.

Grupo dos dialectos centro-meridionais:

– dialectos do Centro-Litoral (estremenho-beirões);

– dialectos do Centro-Interior (ribatejano-baixo-beirão-alentejano-algarvios).

Dialectos insulares:

– Açores: Micaelense, dialecto São Miguel;

– Madeira: madeirense.

Dialectos asturo-leoneses em território português:

– Concelho de Bragança: Rionorês, Guadramilês;

– Concelho de Miranda do Douro: Mirandês.

Cada uma destas variedades tem características linguísticas muito particulares, que os definem individualmente.

Como se pode observar, o mirandês tem exactamente o mesmo estatuto que todos os outros dialectos. Os restantes conceitos que apresenta (“sotaque” e “calão”) pouco têm de científico e são, quase sempre, muito discutíveis. Porém, de uma forma geral, pode dizer-se que “sotaque” é utilizado quando nos referimos a diferentes línguas: “sotaque” espanhol, francês, italiano… Quanto ao calão é um nível de língua, usado em situações de pouca formalidade, o que nada tem que ver com dialectos.

Quanto ao último comentário que menciona, é bastante comum e até aceitável que numa faculdade de Letras de uma universidade, onde se estuda Línguas e Literaturas, haja a preocupação de confrontar as características de cada dialecto. Isso pode inclusivamente servir para sensibilizar os alunos para as diferenças dialectais.

Para mais informações sobre assuntos de “variação linguística”, pode consultar-se o livro Introdução à Linguística Geral e Portuguesa, de Isabel Hub Faria, Emília Ribeiro Pedro, Inês Duarte e Carlos A. M. Gouveia, capítulos 10, 11 e 12.

Cf. Ainda o mirandês

 

Susana Correia