Tradução, traição - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Tradução, traição

«Acontecimento maior do noticiário internacional da altura, a discussão do orçamento espanhol “virou” discussão “dos pressupostos espanhóis”». Uma má tradução reveladora da falta do serviço regular da agência de notícias portuguesa, em greve nesse dia.

 

A greve dos jornalistas da Lusa mostrou inequivocamente a importância do noticiário da agência para os órgãos de comunicação social nacionais. O fenómeno foi sentido em todos os campos – do noticiário económico (o que foi feito da informação sobre a Bolsa?) às páginas desportivas, da actualidade nacional à fotografia. Mas talvez o noticiário internacional tenha sido, de todos, o mais afectado.

Os jornalistas responsáveis pelo noticiário internacional sabiam o que estava a acontecer lá fora. Muito naturalmente, foram à Internet buscar, nos sítios dos jornais internacionais e das agências estrangeiras, a informação que lhes faltava. Até aqui tudo bem, tudo muito fácil. A coisa complicou-se quando foi preciso colocar o noticiário em português. Surgiram então algumas barbaridades que justificaram plenamente a velha máxima traduttore, traditore (tradutor, traidor). Para citar apenas o mais escandaloso e gritante dos exemplos: acontecimento maior do noticiário internacional da altura, a discussão do orçamento espanhol “virou” discussão «dos pressupostos espanhóis». Pressupõe-se que a agência faz falta e que o Governo não faz ideia do disparate que está a cometer, dando-lhe a machadada anunciada.

Fonte

in jornal “i” de 29 de outubro de 2012, na coluna do autor “Ponto do i”. Manteve-se a norma ortográfica de 1945, seguida pelo jornal.

Sobre o autor

Jornalista português nascido no Brasil, é licenciado em Filologia Românica (Faculdade de Letras de Lisboa) onde lecionou Introdução aos Estudos Linguísticos, Sintaxe e Semântica do Português. Foi diretor de Informação das agências noticiosas Anop e NP, chefiou os serviços de comunicação das fundações Gulbenkian e Luso-Americana para o Desenvolvimento. Foi chefe de Informação (PIO) das missões de paz das Nações Unidas em Angola, Timor-Leste, Kosovo e Burundi. Foi diretor-geral da Leya em Angola.