Problemas ortográficos - Acordo Ortográfico - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Problemas ortográficos

Os modernos processadores de texto são uma grande ajuda para evitar erros ortográficos. Contudo, nem sempre estão perfeitos e, muitas vezes, temos necessidade de escrever uma nota à mão, sem essa ajuda.

Assim, é conveniente conhecer as normas ortográficas. Não é, porém, indispensável dominar completamente todas as indicações dessas normas para evitar erros de ortografia ou para notar que determinada escrita está incorrecta: basta conhecer as suas bases fundamentais. Indico a seguir algumas destas bases, que se podem inferir do estudo muito mais pormenorizado feito no Prontuário da Texto Editores.

Um prontuário que tenha um bom vocabulário deve estar sempre à mão, para esclarecer dúvidas sobre a grafia das palavras. Note-se que se o prontuário tiver também significados orientadores, apresenta a virtude de ser de mais imediata consulta que os dicionários.

Norma ortográfica de 1945
ALFABETO (F1 no Prontuário)

Notar que k, w, y não figuram presentemente nas palavras da língua portuguesa. São aceites só nas palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros ou em siglas, símbolos. O mesmo se diz de agrupamentos estranhos presentemente à nossa língua, como ll.  

H (F2)

Na nossa língua, há ainda muitas palavras que são iniciadas por h (ex.: haver, hélice , hera, etc.). Em caso de dúvida, é conveniente consultar um prontuário). Nunca há h no interior das palavras (ex.: desonra, desumano, etc.) e se o h é ainda indispensável no segundo elemento da união de duas palavras, o hífen é necessário sempre (ex.: pré-história). Erros grosseiros: *"úmido" (em Portugal), deshoras, etc.").

TROCAS DE s, c, ç, ss, z, j, g, e, i, o, u, x, ch (F3, F5).

As confusões no som ¦ss¦, no som ¦z¦, no som ¦j¦, no som ¦u¦, no som ¦i¦, no som ¦ch¦ só se resolvem bem com a ajuda dum prontuário. Erros grosseiros frequentes: *assúcar (açúcar), *análize (análise), *geito (jeito), *açoreano (açoriano), *corropio (corrupio), *buxo (bucho), etc.

SEQUÊNCIAS CONSONÂNTICAS (ct, cc, cç, pt, pc, pç, etc.) (F4)

Muitas das consoantes não articuladas já foram abandonadas na língua (ex.: cativo, vitória).

As que são articuladas conservam-se (ex.: adepto, convicto, ficção, núpcias, pacto, rapto, etc.) Repare-se que a supressão da consoante na sequência pode, nalguns casos, alterar o sentido da grafia resultante: pacto ? pato, rapto ? rato, etc.).

Em Portugal, têm-se conservado mesmo quando são mudas, para respeitar a história das palavras (acção, óptimo). Para ter certezas neste caso, quando não se está a escrever no computador, é conveniente haver um prontuário sempre à mão. No novo acordo, estas consoantes mudas desaparecem.

VOGAIS NASAIS (F6)

As vogais nasais na nossa língua são representadas pelos dígrafos: am, an, em, en, im, in, om, on, um, un. A nasal ã só em letra que seja fim de palavra, com hífen ou em palavras com ã final e com sufixos iniciados por z ou por mente: (ex.: manhã, sã-braseiro, lãzudo, cristãmente). Erros grosseiros: *plãta (planta), *irmam (irmã). Nota: o com til só no ditongo õe (ex.: propõe).

DITONGOS (F7)

Distingue-se que há ditongo quando no grupo vocálico entre uma vogal e i ou u (que então funcionam como semivogais) há uma só emissão de voz (ex.: lacrau ¦áu¦, u semivogal; diferente de míngua em fala lenta ¦u-a¦, u vogal). Algumas vezes, os ditongos não têm as semivogais explícitas nas grafias, e/ou a vogal pronunciada é diferente daquela que está grafada (ex.: amam ? ¦ão¦, Santarém ? ¦ãi¦, leite ? ¦âi¦. Notar que quando i ou u são tónicas, o ditongo fica desfeito (ex.: saía, lua [i e u vogais]).

ACENTOS E TREMA (F8, F9, F10, F11, F12, F13, F14)

Os acentos teoricamente ajudam a que saibamos como pronunciar as palavras. Digo teoricamente porque nalguns casos as normas os proíbem e ficamos entregues à necessidade de saber a pronúncia sem essa ajuda (ex.: mesmo sem a ajuda do acento, temos de saber que oi em proibido se deve pronunciar com hiato ¦u-i¦ e não com ditongo ¦ôi¦). As bases seguintes (mnemónicas do Autor) são aplicáveis com ou sem s terminal:

1. PALAVRAS SEM ACENTOS

Base A: As palavras graves terminadas em a, e, o, porque são a maioria das palavras da nossa língua, foram dispensadas de acento (ex.: pata, caminhos, abdome). Incluem-se nesta regra as graves com terminações: em, ens, oo e eia (ex.: virgem, jovens, voo, ideia).

Base B: Não há acentos antes da antepenúltima sílaba (ex.: *júniores seria um erro grosseiro, porque contraria esta regra).

Base C: As palavras são naturalmente agudas, sem precisarem de acento, quando terminam em: l, n, ps, x, z, im, in, om, on, um, un, ã, i, u (i e u se antecedidas de som de consoante) (ex.: anel, fazer, inox, feroz, carmim, patins, batom, bombons, comum, atuns, manhã [órfã precisa de acento agudo], aqui, perus). As monossilábicas com terminação em ou ens também não precisam de acento, pois este não pode deslocar-se para outra sílaba (ex.: bem, tens). As palavras terminadas em ditongo orais ou nasais decrescentes, excepto éi, éu, ói também dispensam acento (ex.:atrai, lacrau, darei [papéis precisa de acento], comeu [ilhéu precisa de acento], depois [lençóis precisa de acento], inquiriu, influi, pauis, passou, camião [órgão precisa de acento], patrões).

Base D: Não são acentuadas com circunflexo as homógrafas heterofónicas (ex.: pega ¦pé¦ e pega ¦pê¦; cor ¦kó¦ e cor ¦kô¦). Assim, são erros grosseiros grafar, por exemplo, *môlhos (calda), *rêgo (sulco).

2. PALAVRAS COM ACENTOS

Base E: Qualquer palavra da língua portuguesa não tem mais de que um acento que marque a tónica: agudo ou circunflexo; e, reciprocamente, estes dois acentos só são legítimos em sílabas tónicas (ex. de erro grosseiro: *"proíbido"). Quando aparece um til também, este marca só a nasalação (ex.: acórdão).

Base F: As palavras esdrúxulas (mesmo aquelas que só o são em fala lenta) devem ser sempre acentuadas, ou com acento agudo ou com circunflexo (ex.: vitória, estômago, água). Nota: em fala rápida, vitória e água são palavras graves, com os ditongos crescentes, respectivamente ¦ia¦ e ¦ua¦.

Base G: As palavras que não sejam graves e tenham as terminações indicadas na regra A precisam de acento (ex.: estás, café, português, dominós, robô, Santarém, améns, vírgula).

Base H: As palavras que não sejam agudas e tenham as terminações indicadas na regra C precisam de acento (ex.: têxtil, bômbax, hífen, fórceps, pulôver, dândi, ânus).

Base I: Pode usar-se o acento para indicar que o grupo vocálico gráfico não é um ditongo (ex.: atraí, baú). Mas é nesta regra que as normas são mais confusas: estabelece-se que não há ditongo, se i ou u estão a formar sílaba com: l, m, n, r, z ou antes de nh (ex.: paul, ruim, saindo, influirmos, juiz, moinho). Mas repare-se que, por um lado, os acentos deixam de ser legítimos se a vogal não é tónica (ex.: saudade) e, por outro, já são necessários se as citadas consoantes pertencem a outra sílaba (ex.: juízes). Para aumentar a confusão há ainda outras dispensas de acento: se precedidas de vogal (ex.: atraiu) ou, em Portugal, de ditongo (ex.: baiuca).

3. CASOS PARTICULARES

Base J: Contrariando a regra D, acentua-se: pára distinguindo de para, pôde distinguindo de pode, pôr distinguindo de por, pêra/o distinguindo de pera/o, dêmos (conjuntivo) distinguindo de demos (indicativo), amámos (pretérito) distinguindo de amamos (presente), pólo/s distinguindo de polo/s, vêm distinguindo de vem, têm distinguindo de tem (o acento circunflexo aparece sempre na terceira pessoa do plural nestas terminações), côa/s distinguindo de coa/s, distinguindo de de, quê, distinguindo de que.

Base K: As terminações verbais êem são acentuadas (ex.: crêem, dêem, lêem, vêem, incluindo os verbos com as mesmas terminações: ex.: descrêem, relêem, revêem, etc.).

Base L: As palavras agudas com ditongos semiabertos éi, éu, ói são acentuadas (ex.: anéis, ilhéu, lençóis, bóia, heróico); mas no caso das palavras graves a acentuação de oi não é uniforme (ex.: bóia, comboio, boina, heróico).

Base M: Nas conjugações clíticas, o primeiro termo é acentuado como se fosse uma palavra independente (ex.: acerta-lhe, fazê-la, compu-la, pedi-la, etc.).

Base N: O acento grave está restringido a algumas formas como à/s, àquele/a/s, àquilo, àqueloutro/a/s. Caiu há muito em palavras derivadas, como na grafia presentemente errada: *"màzinha".

Base O: Os acentos em palavras derivadas com -mente ou sufixos iniciados por z já não têm acento (ex.: avidamente, sozinho).

Base P: O trema ¨ foi banido das palavras da língua portuguesa em Portugal, só se aceitando em palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros (ex.: mülleriano).       

4. BASE GERAL PARA OS ACENTOS

Em resumo, quando há uma dúvida, o bom critério é fazermos a pergunta: que pronúncia teria esta palavra sem o acento? (ex.: dominó sem acento fica domino, adúltero sem acento fica adultero, órgão sem acento fica orgão.

Um cuidado fundamental a ter é nunca pôr acentos (agudo ou circunflexo) fora da sílaba tónica, pois isso é um erro grosseiro. Na dúvida, recomenda-se usar o mesmo critério que para as vírgulas: é melhor não pôr um acento indevido do que esquecer um devido.

HÍFEN (F15-17)

Há presentemente uma acerta arbitrariedade no uso do hífen. Na dúvida é conveniente consultar o "Prontuário".

O Autor estabeleceu também para este caso algumas bases mnemónicas, muito simplificadas, em relação ao estudo muito mais aprofundado feito no "Prontuário" da Texto Editores:

Base A: Usa-se hífen quando o conjunto está ligado, formando uma unidade semântica e não convém fundir os elementos (ex.: mais-que-perfeito).

Base B: Usa-se frequentemente para dar ao conjunto um sentido conotativo particular, em relação ao denotativo dos elementos independentes (ex.: amor-perfeito [planta], erva-doce [planta especial], pé-de-meia [economias], arco-da-velha [arco-íris], água-de-colónia [perfume], etc.).

Base C: Usa-se quando o segundo elemento tem um  h indispensável (ex.: sobre-humano), pois h não pode ficar no interior da palavra.

Base D: Usa-se hífen nas junções em que o primeiro elemento termina com acento obrigatório (ex.: além-Tejo: pré-clássico), pois o acento seria ilegítimo com as palavras fundidas.

Base E: Usa-se hífen só num número muito restrito de locuções, como em cor-de-rosa, ou em elementos com o hífen já consagrado (ex.: fim-de-semana).

Base F: Usa-se nas formas monossilábicas do verbo haver (ex.: hei-de, hás-de, há-de, hão-de) e na ênclise (ex.: deixa-o, eis-me).

Base G: Usa-se quando há repetição de letras no fim do primeiro e no início do segundo elementos da palavra composta (ex.: semi-interno, sub-bibliotecário).

Base H: Tem-se usado quando o s ou o r podem ficar intervocálicos no caso de fusão das duas palavras (ex.: contra-regra, extra-sístole); regra que não é uniforme, pois frequentemente já se duplica o r ou o s e se faz a fusão (ex.: termossifão).

Base I: Usa-se com ex- cessamento, soto-, vice-, etc.

Base J: Na generalidade, usa-se o hífen quando a fusão das palavras implica uma prosódia diferente da correcta (ex.: ab-rogar: *abrogar;  pan-africano: *panafricano ¦pâ-na¦; inter-resistente: *interresistente ¦te-rre¦; bem-aventurado: *bemaventurado ¦be-mâ¦; mal-amanhado; *malamanhado ¦mâ-lâ¦, etc.

MAIÚSCULAS (F19)

Depois de cerca de três páginas de pormenorização das regras ortográficas para a aplicação de maiúsculas, o "Prontuário" da Texto Editores termina com os seguintes parágrafos, que indico neste resumo como bases:

Base A: Citam-se como casos típicos de maiúscula inicial: início de período, antropónimos, topónimos, siglas e algumas abreviaturas, festas e festividades, nomes do calendário, nomes de raças, povos e populações, nomes de astros, vocábulos que designam altos conceitos ou entidades sagradas, cargos, seres antropomorfizados, nomes de instituições, as regiões consideradas absolutamente, nomes de disciplinas escolares, títulos de obras, símbolos de unidades de medida quando invocam um nome próprio, citações que iniciam período, etc.

Base B: Na generalidade, usam-se minúsculas cada vez mais (os linguistas presentemente condenam o uso excessivo de maiúsculas). A norma prescreve-as nomeadamente: nos pontos cardeais escritos por extenso, nos nomes das ciências e artes, nos dias da semana, nos colectivos que não representam a totalidade, nos titulares dos cargos quando não considerados pessoalmente, nos títulos de obras no que se refere aos artigos definidos e palavras inflexivas, em muitos símbolos de unidades de medida.

Base C: Critério geral: O critério é o oposto ao dos acentos. Na dúvida de se poder ofender alguém, escrever com maiúscula.

DIVISÃO SILÁBICA (na translineação) (F20)

No tema `erros grosseiros´ < linguística,  desta página, estão exemplos de más divisões silábicas.

Sobre o autor

D´Silvas Filho, pseudónimo literário de um docente aposentado do ensino superior, com prolongada actividade pedagógica, cargos em órgãos de gestão e categoria final de professor coordenador deste mesmo ensino. Autor do livro Prontuário Universal — Erros Corrigidos de Português. Consultor do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.