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Ensino // Gramática

A tradição literária no ensino da gramática

Por que aprendemos o que aprendemos

«É preciso que se ensine vós, mesóclise, pretérito mais-que-perfeito, lista de alguns coletivos durante o processo de letramento

[Atenção! Importa ressaltar que este texto não é uma ode ao purismo ou à retrogressão.]

Se você ainda acha que certos conhecimentos linguísticos são inúteis, siga a leitura.

1. Existem dois registros predominantes: o culto (normalmente empregado em contexto formal) e o coloquial (normalmente empregado em contexto informal).

2. Existem duas modalidades: a fala e a escrita, que podem ser usadas dentro de um desses dois registros.

3. Por que certas formas linguísticas rarissimamente (ou nunca) usadas na fala coloquial – e, até mesmo, culta – não devem ser abolidas do ensino? Porque a língua não se resume à fala. Apesar de na escrita coloquial não se usarem certas formas, essas mesmas formas ainda são usadas ou encontradas na escrita culta dos textos circulantes em nossa sociedade ativa, independentemente do grau de ocorrência delas.

4. O cidadão culto (do ponto de vista linguístico) deve ser capaz de falar, ouvir, escrever e ler essas formas linguísticas (algumas delas sobreviventes no modo respirador artificial) – ainda que nunca as use. Para isso, é preciso que se ensine vós, mesóclise, pretérito mais-que-perfeito, lista de alguns coletivos durante o processo de letramento, que se faz (ou se deveria) por meio da leitura e escrita de textos predominantemente literários da história do português.

5. Se não conhecer essas e tantas outras formas pouco ou nada usadas, como um aluno conseguirá ler bem Camões, Gil Vicente, Padre Antônio Vieira, Gregório de Matos, Basílio da Gama, Bocage, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Machado de Assis, José de Alencar, Gonçalves Dias...? E paro antes de entrar no século XX.

6. O objetivo do professor de português é desenvolver a competência linguística plena do estudante – o que inclui, necessariamente, a capacidade de ler, interpretar, fruir os textos que compõem o patrimônio escrito da língua. O ensino de formas pouco usuais não implica transformá-las em exigência de uso cotidiano; significa garantir ao estudante os instrumentos necessários para compreender a tradição escrita da língua, ampliando seu repertório e sua memória linguístico-cultural. Afinal, todas essas formas estão vivas nos textos escritos da língua portuguesa.

7. E a gramática? A gramática não é um fim em si mesma, mas o instrumento que abre o acesso a esse patrimônio e, a partir dele, capacita o aluno a produzir e compreender melhor qualquer gênero textual, dos mais literários – os mais importantes por causa do enriquecimento que ofertam em termos de possibilidades expressivas – aos mais utilitários. Além do valor cultural, conhecer a gramática da própria língua fortalece o raciocínio e o pensamento, pois a linguagem organiza nossa cognição, e sua estrutura fundamental é precisamente a gramática. O ensino da gramática é uma ponte entre o passado, o presente e o futuro, como diz Gladstone Chaves de Melo em seu livro Iniciação à Filologia e à Linguística <portuguesa:

«Observado isso então, diremos que compete à Gramática sistematizar, pelo melhor método e integralmente, as características da época contemporânea, registrar os vestígios de características de épocas anteriores (denunciando-lhes, depois de exame rigoroso, o grau de declínio), e ter olhos para as tendências que for surpreendendo, as quais apontará como movimentos embrionários e não como características, é óbvio.»

8. Para fechar, é o seguinte: abolir do ensino formas como vós, a mesóclise, o pretérito mais-que-perfeito ou alguns coletivos não amplia a competência linguística do aluno; ao contrário, empobrece-a. Existe o valor ativo e o valor passivo da língua. Ensinar não significa obrigar ninguém a usar essas formas no cotidiano, mas garantir que o estudante as compreenda, reconheça seu valor histórico, estilístico e literário e possa transitar com autonomia por toda a tradição escrita da língua portuguesa. Uma educação linguística de qualidade não restringe horizontes; ela sempre os amplia, entende? Quem ensina português deve formar leitores capazes de compreender não apenas o português de hoje, mas também o de ontem – e, assim, preparar cidadãos para entender e cultivar plenamente o patrimônio literário e cultural de sua própria língua.

E aí, concorda?

Fonte

Apontamento publicado no Facebook em 17/07/2026 e aqui partilhado com a devida vénia.

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