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Ensino // Gramática

Afinal, por que se ensina gramática

Uma visão brasileira aplicável a outros países de língua portuguesa

«A gramática não cria uma escrita perfeita por si só, mas oferece ferramentas de análise e controle que permitem aperfeiçoar conscientemente a escrita.» 

O falante nativo, desde a infância, já domina intuitivamente a sua língua materna, pois o cérebro humano tem a capacidade inata de processar a linguagem e absorver códigos linguísticos.

Por isso, desde os compêndios gramaticais mais antigos, encontramos a seguinte definição de gramática:

«Gramática é a técnica que nos ensina a falar BEM, a escrever BEM, a compreender BEM.»

Ou seja, o papel do professor de português não é ensinar uma língua que o aluno já domina para que ele aprenda a falar o seu próprio idioma.

Não.

O seu papel é ensiná-lo a falar MELHOR, a escrever MELHOR, a compreender MELHOR a própria língua. A ideia é munir o aluno de ferramentas gramaticais para que ele compreenda, controle, manipule e refine o que ele já sabe fazer. Obviamente, o ensino da língua também envolve a consciência da diversidade linguística.

Ficou claro? É apenas isso. É por isso que se ensina gramática — com leitura de bons textos, com interpretação de textos de alto valor, com treinamento de redação de textos de diversos gêneros...

[E eu poderia terminar aqui. Mas preciso dizer mais alguma coisa.]

O linguista francês Victor Henry deixou esclarecido em seu livro Antinomies Linguistiques (1896) que existem duas linguagens:

I. langage transmis [linguagem transmitida] > linguagem herdada pela tradição social, transmitida inconscientemente entre gerações, ou seja, linguagem absorvida pelo indivíduo no seio familiar, inicialmente pelo processo de aquisição de linguagem.

II. langage appris [linguagem aprendida] > linguagem aprendida/adquirida conscientemente, muitas vezes por meio da cultura escrita ou da ciência, sobretudo no ambiente escolar ou universitário.

– Mas, Pestana, será que essas ideias dele não caducaram?

Não. Muito pelo contrário.

Existem alguns autores contemporâneos que defendem ou discutem a ideia de que a competência linguística não se limita à aquisição inconsciente da infância, mas pode ser expandida por aprendizagem consciente (gramática, escola, reflexão metalinguística) — ideia paralela à oposição de Victor Henry (langage transmis / langage appris). Eis alguns nomes: Charles Bally, Rod Ellis, Robert DeKeyser, Nick Ellis, Michael Tomasello, Stephen Krashen, Vyvyan Evans, etc.

Além destes, a excelente professora brasileira Simone Benedetti, especialista em psicopedagogia, observa:

«Todos os autores que defendem o ensino explícito e estruturado apoiam essa ideia que, atualmente, é discutida nas ciências cognitivas sob o tema das aprendizagens primárias/espontâneas/implícitas (baseadas em mecanismos inatos de aprendizagem estatística) e aprendizagens deliberadas/conscientes (baseadas nos mecanismos de aprendizagem consciente: atenção, memória de trabalho e funções executivas).

O trabalho de cientistas como Stanislas Dehaene, Steven Pinker, Daniel Willingham, Charles Perfetti, John Sweller, Linnea Ehri, Slava Kalyuga, Paul Kirschner, entre tantos outros, apoia a ideia da diferença qualitativa entre esses dois tipos de aprendizagem.»

Apesar de não formarem um bloco teórico unificado, há uma ideia comum que atravessa esses autores, a saber: a competência linguística envolve dois níveis complementares – o conhecimento implícito (aquisição natural) e o conhecimento explícito (ensino, reflexão metalinguística), semelhantemente à abordagem de Victor Henry. Ou seja, a língua não se esgota na fala aprendida no contexto familiar, mas se expande pelos usos absorvidos por meio da alfabetização e letramento.

Antes que alguém pense que ensinar gramática sozinho melhora a escrita automaticamente, é importante dizer: o ensino mecânico ou descontextualizado de regras não produz escritores melhores. A gramática só cumpre seu papel quando estudada em contato com textos reais, articulada à leitura de qualidade e à produção textual. Em outras palavras, a gramática não cria uma escrita perfeita por si só, mas oferece ferramentas de análise e controle que permitem aperfeiçoar conscientemente a escrita.

Então, chegamos à pergunta do título: por que se ensina gramática na escola?
Você já deve ter deduzido...

O estudo da gramática desenvolve a consciência linguística, a capacidade de refletir sobre a própria língua, permitindo reconhecer e explicar estruturas que o falante já usa intuitivamente. O usuário sai do intuitivo para o consciente.

O conhecimento explícito ajuda a monitorar/controlar a linguagem em contextos formais, como textos acadêmicos e certos discursos, permitindo-nos maior precisão e clareza.
As referências e os modelos de uso presentes nas gramáticas (sobretudo normativas) nos possibilitam compreender os textos dos melhores escritores do idioma, aproximando-nos da linguagem literária.

A gramática funciona como ferramenta para refinar, analisar, organizar, melhorar a escrita. Isso tudo exige planejamento morfossintático, coesão, pontuação estruturada, emprego de classes de palavras e outras partes aprendidas na gramática normativa, que – diferentemente do que dizem por aí – não ensina só «regrinhas de etiqueta».

O estudo da gramática colabora para o desenvolvimento do pensamento analítico, exercitando habilidades cognitivas como classificação, abstração, análise estrutural e afins.
Quer ver um exemplo prático? Clique em "Orações subordinadas – que chatice!" (Facebook, 23/02/2023).

Resumo da ópera: o falante já domina a língua intuitivamente; a escola transforma esse domínio em conhecimento consciente, para que o aluno domine MELHOR a própria língua.

Fonte

Publicação do autor no Facebook, em 12/03/2026 no Facebook. 

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