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Controvérsias // Gramática

Resgatar a gramática tradicional

Mais de 2000 anos jogados fora?

«Gramática + leitura + escrita = literacia. Isoladas, são conteúdos; juntas, viram competência

Há mais de 2000 anos, o estudo da gramática sempre esteve ligado à sua funcionalidade, descrita muitas vezes como a ferramenta para organizar bem os pensamentos, de modo a:

1. ler bem; 
2. compreender bem;
3. falar bem;
4. escrever bem.

A intenção dos gramáticos, portanto, sempre foi a de nos ajudar a dominar a língua, elevando nossas competências, nossas habilidades. Cabe à gramática ajudar-nos a entender e a usar bem a nossa língua. Esta é uma lição histórica bimilenar, mais do que testada e comprovada.

Como esta postagem não é uma tese de doutorado, veja ao menos o que disseram alguns estudiosos luso-brasileiros – cada um a seu modo – ao longo da gramaticografia da língua portuguesa (desde o século XVI até o século XXI):

- Fernão de Oliveira (1536): «gramatica he arte que ensina a bem ler e falar.»

- Antônio José dos Reis Lobato (1770): «Por duas razões se faz indispensavelmente precisa a noticia da Grammatica da lingua materna: primeira, para se fallar sem erros; segunda, para se saberem os fundamentos da lingua, que se falla usualmente. Esta necessidade da Grammatica materna tem conhecido geralmente todas as nações cultas; porque em todas se tem occupado homens doutissimos em compôrem Grammaticas da sua lingua.»

- Antônio de Morais Silva (1806): «A Grammatica é arte, que ensina a declarar bem os nossos pensamentos, por meyo de palavras.»

- Júlio Ribeiro (1885): «[...] O estudo da grammatica não tem por principal objecto a correcção da linguagem. Ouvindo bons oradores, conversando com pessoas instruidas, lendo artigos e livros bem escriptos, muita gente consegue fallar e escrever correctamente sem ter feito estudo especial de um curso de grammatica. Não se póde negar, todavia, que as regras do bom uso da linguagem, expostas como ellas o são nos compendios, facilitam muito tal aprendizagem; até mesmo o estudo dessas regras é o unico meio que têm de corrigir-se os que na puericia aprenderam mal a sua lingua. [...] Ha muitos outros pontos de vista sob os quaes é util o estudo da grammatica. Nós começamos a aprendizagem da falla aprendendo a entender as palavras que ouvimos pronunciar aos outros; depois aprendemos a pronuncial-as nós proprios, e a coordenal-as, como os outros fazem, para exprimir as nossas impressões, os nossos pensamentos. Um pouco mais tarde temos de aprender a entendel-as quando apresentadas á nossa vista manuscriptas ou impressas: temos de apresental-as tambem desse modo, isto é, de escrevel-as. [...].»

- Eduardo Carlos Pereira (1907): «Gramática é a ciência das palavras e suas relações, ou a arte de usar as palavras com acerto na expressão do pensamento.»

- Rocha Lima (1957): «GRAMÁTICA NORMATIVA [...] É uma disciplina, didática por excelência, que tem por finalidade codificar o 'uso idiomático', dele induzindo, por classificação e sistematização, as normas que, em determinada época, representam o ideal da expressão correta. 'Son formas correctas de decir aquellas aceptadas y usadas por los grupos más cultos de la sociedad. Corrección quiere decir aqui prestigio social de cultura.' (2) Fundamentam-se as regras da gramática normativa (3) nas obras dos grandes escritores, em cuja linguagem as classes ilustradas põem o seu ideal de perfeição, porque nela é que se espelha o que o uso idiomático estabilizou e consagrou. (2) Amado Alonso e Pedro Henríquez Urena, Gramática castellana, 4a ed., 2 vols., Buenos Aires: Losada, 1943, vol. 1, p. 16. (3) Distingue-se, assim, a gramática normativa da gramática descritiva, que examina a língua como 'sistema de meios de expressão', sem levar em conta a sua utilização imediata como código de bem falar e escrever. E claro que se trata de disciplinas interdependentes, porém de finalidades distintas.»

- José Carlos de Azeredo (2008): «... o sistema gramatical da língua é tratado como um meio de organizar sentidos, tanto do ponto de vista de quem fala/escreve, quanto de quem ouve/lê. [...] ... público a que esta gramática se destina: usuários da língua portuguesa em geral, cuja formação requeira, por motivos socioculturais diversos, competência produtiva (expressar) e receptiva (compreender) na modalidade escrita padrão. [...] A aptidão para a leitura de textos variados, com finalidade estritamente informativa ou com objetivos profissionais, morais, estéticos ou de lazer, assim como a capacidade para conceber um texto adequado a seus fins – e portanto no gênero apropriado e pensadamente urdido nos aspectos gramaticais e lexicais – fazem parte da formação plena de qualquer cidadão pertencente a sociedades complexas, e são uma condição para o desenvolvimento contínuo do potencial intelectual e cultural de qualquer pessoa.»

Percebeu o que TODOS eles têm em comum?

O mesmo pensamento de que a gramática é um instrumento cultural que nos permite entender melhor a língua, habilitando-nos a ter uma expressão clara e eficaz do pensamento, sobretudo na modalidade escrita.

Isso desmonta a caricatura da «gramática como polícia da língua» e mostra que, na tradição luso-brasileira, a ideia de norma sempre esteve ligada a uso, sentido, cultura e escrita, não a purismo cego ou arbitrariedade como tônica.

Ainda assim, no âmbito da Linguística, surgiu – décadas atrás, com repercussões negativas até hoje – uma contestação muito grande ao ensino explícito de gramática, como se vê na imagem abaixo.

A despeito dessa visão distorcida e anticientífica sobre ela, é por meio do aprendizado sistemático e explícito da gramática – o que envolve, em contexto pedagógico, entender bem os mecanismos da língua, absorver suas definições, armazenar algum exemplário, fazer exercícios de identificação e compreensão dos recursos morfológicos, sintáticos, lexicais, discursivos, etc. – que conseguimos alcançar um alto grau de qualidade de leitura, escrita, compreensão e produção de textos, isto é, o verdadeiro letramento. (É óbvio que, durante esse processo, o hábito da escrita e, sobretudo, da leitura de bons textos colabora simultaneamente para isso.)

Em suma, gramática + leitura + escrita = literacia. Isoladas, são conteúdos; juntas, viram competência.

– Pestana, mas há estudos científicos que comprovam a eficácia do ensino explícito de gramática?

Se você ainda duvida, então leia este estudo, que enterra a visão pseudocientífica ensinada ainda hoje no Brasil nos cursos de pedagogia e de letras:

Marjokorpi, J. e van Rijt, J. H.M. 2025. Grammatical understanding predicts reading comprehension in secondary-level students: insights from a Finnish national survey. Language and Education, vol. 30, n.º 4, pp. 924-943 [tradução aqui]

Quer outra referência? Recomendo duas, então:

1. "Mais um exemplo de pseudolinguística", Língua e Tradição (Facebook), 08/02/2026 

2. "Exageros retóricos na linguística", Fernando Pestana (Facebook), 29/01/2026

Agora você tem duas opções: continuar repetindo a deteriorada e nociva cantilena que demoniza anticientificamente o ensino explícito de gramática... ou se dar conta de uma obviedade histórica comprovada cientificamente: o aprendizado explícito de gramática funciona!

P.S.:  Se você é estudante de Letras ou professor de Português, desperte para os fatos verdadeiramente científicos, nunca permitindo que assertivas sem provas o convençam retoricamente. Quando lhe disserem que o que importa no ensino de língua é «ler, reler, escrever, reescrever», questione:

I. Como é possível ler bem, compreender bem, se não formos submetidos a um ensino explícito e sistemático, com necessária metalinguagem, que nos leve à compreensão estrutural da gramática da língua, tornando-nos indivíduos dotados de consciência morfossintática?

II. Como é possível escrever bem, se não aprendermos explicitamente que, para acentuarmos graficamente as palavras, precisamos conhecer os pressupostos encontrados nas aulas de fonologia (sílaba tônica, classificação das sílabas, ditongo, hiato); para entendermos bem a função dos elementos que compõem as frases da língua, precisamos conhecer previamente as classes gramaticais (substantivo, adjetivo, pronome, advérbio, verbo, conjunção); para sabermos usar bem a vírgula e outros sinais de pontuação, precisamos dominar a análise sintática (sujeito, objeto, aposto, orações coordenadas, subordinadas); para dominarmos as regras de concordância e de regência, precisamos saber identificar certas classes gramaticais (verbo, preposição, pronome) e certas relações sintáticas (sujeito e verbo; verbo, objeto e adjunto adverbial; determinantes e substantivos)...?

Enfim, não caia na retórica antigramatical. A gramática deve estar a serviço da leitura, da escrita e do pensamento, e não como treino mecânico de nomenclatura. É o domínio da gramática que nos dá o controle consciente da língua. Historicamente, é esse modelo híbrido (sistematização + uso reflexivo) que sustenta a formação letrada.

O afastamento da gramática tem feito muito mal à educação brasileira, há décadas. Os resultados pífios do PISA 2022 e do INAF 2024 continuam a comprovar isso. Precisamos resgatar o que sempre funcionou: o ensino explícito e sistemático da gramática – ora isoladamente, ora reflexivamente, quando aplicada aos textos. Se assim não fizermos, continuaremos perpetuando o Brasil a índices sempre medíocres de educação. E isso é um crime moral, civilizacional.

Fonte

Artigo de opinião do gramático Fernando Pestana e publicado na página deste autor no Facebook (08/02/2026).

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