Neologismos - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Neologismos

Antes de mais nada, quero felicitá-los pelas cuidadosas e precisas explicações às dúvidas formuladas. Destaco os comentários sobre o plural de decibel. Magnífico!

Ilustra uma polêmica freqüente nas revisões de textos técnicos. Muitos técnicos e cientistas, principalmente no Brasil, acreditam que não precisam usar as regras da gramática portuguesa nos seus escritos técnicos. Nasce assim entre eles uma linguagem distorcida e idiossincrática num hermetismo até anticientífico. O mais comum é a criação de neologismos, principalmente, mal aportuguesados do inglês, para exprimir pensamentos já representados por vocábulos da nossa língua. Este é o caso da palavra “massivo”, cada vez mais usada no jornalismo brasileiro para traduzir “massive”, quando a tradução correta é maciço. Entre muitas outras, tenho encontrado “intervencionar” para exprimir intervir, “revegetar” para substituir replantar.

Depois de procurar em vão, como já esperava, por estes neologismos nos melhores dicionários de nossa língua, deparei-me na Internet com um "Portal da Língua Portuguesa" (Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) que até conjugava o verbo “intervencionar”.

Pergunto, pois, quais as regras e os cuidados na criação de neologismos? É aceitável usar neologismos no lugar de palavras já existentes, mesmo que já figurem como tradução de termos estrangeiros nos melhores dicionários bilíngües? Qual a orientação sobre este assunto que posso ter ao fazer revisões nos textos técnicos?

Oscar P. G. Braun Geólogo Petrópolis, Brasil 4K

Muito obrigado pelas suas gentis palavras. A correcção e a protecção da nossa comum língua foram desde o início a preocupação fundamental dos fundadores de Ciberdúvidas, os jornalistas Carreira Bom e José Mário Costa, sempre acompanhados no mesmo critério pelos consultores de Ciberdúvidas.

No caso da aceitação dos neologismos, porém, não há consenso. Há quem repudie os empréstimos quando não trazem nada de novo, e há quem considere que um novo vocábulo enriquece sempre a língua.

Não comprometendo Ciberdúvidas e, como eu digo sempre, sem pretender fazer lei na língua, transcrevo notas sobre neologismos, dum livro em que estou a colaborar, para ser publicado ainda este ano:

O facto de «uma determinada palavra não se encontrar nos dicionários» não nos deve impedir de a utilizar. As condições são: que não haja nenhuma já dicionarizada que possa ser utilizada com maior propriedade, que essa nova palavra obedeça à índole da língua (sem adaptações que a adulterem) e que seja efectivamente indispensável para exprimir exactamente o conceito e sem ambiguidades. Com a reserva, sublinha-se, de que um novo valor semântico, só de pouca gente conhecido, deve ser restrito ao núcleo dos conhecedores.

A língua não é estática. É um património vivo que se enriquece com as gerações de falantes. Estes vão sempre criando os signos mais adequados ao aperfeiçoamento actualizado da comunicação.

Nalguns casos, a adaptação pode é estar incorrecta. Veja-se o caso de basebol em Portugal. A adaptação brasileira beisebol é preferível. Basebol, com pronúncia bâi, contraria a índole da língua. Se em Portugal se mudou o inglês all de baseball para bol, para estar de acordo com a pronúncia habitual no nosso país, não se percebe porque não se mudou também a grafia ba para bei (a versão portuguesa do Houaiss brasileiro já força a solução bei, contrariando Rebelo Gonçalves, a nossa Academia e outros dicionários portugueses). Este é um dos casos em que preferirei a solução brasileira, quando o novo AO entrar em vigor em Portugal.

Com saudades do ambiente de mútua evocação dum passado comum (e tão simpático) de Petrópolis, cumprimento o irmão na língua.

Ao seu dispor,

D´Silvas Filho