A propósito do pronome pessoal mim - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A propósito do pronome pessoal mim

Gostaria de pedir esclarecimento sobre algumas dúvidas relativas ao pronome “mim” e funções sintáticas. No tocante ao pronome, geralmente, desempenha a função de objeto indireto, claramente, com verbos que requeiram esse tipo de complemento. Contudo, uma inquietação surgiu-me quando encontrei a seguinte construção: «Ninguém mandou aqui a mim».

Primeiro, queria saber se a construção é gramatical e por que razão?

Segundo, gostaria que me esclarecessem a função sintática que o “mim” desempenha na construção em causa, pois, apesar de geralmente desempenhar a função de objeto indireto, parece-me que não é essa a função que lhe foi atribuída aqui.

Ainda na mesma linha, gostaria de obter algum julgamento sobre o uso da expressão «mulher de mim».

Por último, queria também poder perceber a função sintática dos argumentos verbais nos trechos que se seguem, obtendo, se possível, a respetiva justificação. a) «Nas cenas do Auto da Lusitânia atuam as personagens Todo o Mundo e Ninguém.» b) «Essa guerra acontece na cabeça dele.» c) «Jet Li atua em Os Mercenários

Antecipadamente obrigado.

Edisio Daniel Mandlate Estudante Chongoene, Moçambique 1K

1. Em primeiro lugar, na variante europeia do português, não é verdade que o constituinte «a mim» seja geralmente o objeto (complemento) indireto.

Mim é a forma tónica do pronome pessoal com função de complemento oblíquo em «Ele duvida de mim; A Ana suspeita de mim; O meu pai decidiu por mim» ou com função de complemento agente da passiva em «Esta sopa foi feita por mim».

Podemos encontrar a expressão «a mim» como forma fática do complemento indireto em «Ele disse-me isso a mim e eu disse-te o mesmo a ti.

Em português europeu, a frase que apresenta: «Ninguém mandou aqui a mim» não é gramatical, dado que o verbo mandar é transitivo direto, logo pede complemento direto: Ninguém me mandou aqui.

Note-se que a colocação do pronome pessoal átono obedece a regras. Como o sujeito é um pronome indefinido, este obriga a que o pronome pessoal átono anteceda a forma verbal. A frase: *Ninguém mandou-me aqui é igualmente agramatical em português europeu. 

2. Na frase que o consulente pretende ver analisada o pronome pessoal átono -me desempenha a função sintática de complemento direto, dado que se reescrevermos a frase na terceira pessoa «Ninguém o mandou aqui», verificamos que o pronome pessoal átono é de complemento direto e não de complemento indireto. Já na frase Ninguém me telefonou daí, verificamos que, ao reescrevermos a frase na terceira pessoa: Ninguém lhe telefonou daí, o pronome pessoal átono desempenha a função sintática de complemento indireto.

Assim, as formas corretas de pronome pessoal átono para as funções sintáticas de complemento direto e indireto são –me,-te,-se/-o(-a)/lhe,-nos,-vos,-se/-os(-as)/-lhes. A função sintática correta depende do tipo de verbo da frase: se o verbo é transitivo direto, seleciona um complemento (objeto) direto (substituição da expressão nominal pelo pronome -o (caso acusativo).

Ex: «A Ana encontrou o João/ A Ana encontrou-o

Caso o verbo seja transitivo indireto, seleciona um complemento (objeto) indireto (substituição da expressão pela forma do pronome -lhe (caso dativo).

Ex: «A Ana telefonou ao pai/ A Ana telefonou-lhe.» 

3. Relativamente ao uso da expressão «Mulher de mim», tratar-se-á de uma expressão marcada no português de Moçambique, não obedecendo à norma culta difundida no próprio país.

A expressão «mulher de mim», em português europeu, não é gramatical.

         Ex: «A minha mulher foi hoje ao médico.»

               «*A mulher de mim foi hoje ao médico.» 

4. Nas frases apresentadas, o verbo atuar é transitivo indireto e seleciona complemento oblíquo (X atua em Y)…

a) Nas cenas do Auto da Lusitânia atuam as personagens todo o mundo e ninguém.

Reescrevo a frase apresentada pela ordem direta dos constituintes: «As personagens Todo o Mundo e Ninguém atuam nas cenas do Auto da Lusitânia.» Ao aplicarmos o teste sintático da pronominalização para identificação da função sintática, verificamos que a expressão só pode ser substituída por um pronome pessoal tónico de sujeito: «Elas atuam nas cenas de Auto da Lusitânia.»

Assim, a expressão nominal As personagens Todo o Mundo e Ninguém desempenha a função sintática de sujeito da frase.

O constituinte Nas cenas do Auto da Lusitânia é o complemento oblíquo, uma vez que o verbo não é intransitivo.

Na frase c),apesar de em «Os Mercenários» ser uma expressão elítica ( = no filme "Os Mercenários",  a análise é a mesma: o constituinte em «Os Mercenários» desempenha a função sintática de complemento oblíquo.

Se utilizarmos o teste de identificação do complemento oblíquo da pergunta /resposta, verificamos que o constituinte não pode ser apagado: 

a) *O que se passa com o sujeito em «Os Mercenários»?

    *Atua.

a’) O que se passa com o sujeito?

      Atua em (na peça) «Os Mercenários». 

Na frase b), o verbo acontecer é intransitivo (X acontece) (vide Dicionário Aurélio XXI, Dicionário da Academia das Ciências, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, este último atesta a ocorrência de o verbo acontecer ser transitivo indireto quando é pronominal: Isso aconteceu-me.).

Apesar da presença recorrente de expressões temporais e locativas com o verbo acontecer, o verbo é intransitivo e a expressão locativa ou temporal pode ser apagada:

a) Isso acontecia muito nas aldeias (Nas aldeias, acontecia muito isso / Isso acontecia muito nas aldeias.)

b) A festa aconteceu no feriado (No feriado, a festa aconteceu / A festa aconteceu no feriado). 

Para a frase «Essa guerra acontece na cabeça dele», propomos a mesma análise, o constituinte sublinhado é um modificador do grupo verbal.

Brígida Trindade
Tema: TLEBS Classe de Palavras: pronome