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Um vírus nem sempre foi um vírus.
Um vírus nem sempre foi um vírus.
Palavras que mudaram de significado com os tempos

Trabalho publicado no jornal Observador em 26/07/2015 à volta dos processos de alteração do significado das palavras, com relevo para a extensão semântica, a metáfora e a metonímia – e para cuja elaboração foram ouvidos os linguistas João Paulo Silvestre e Margarita Correia.

 

 

O penso que se comia, os carregadores que eram homens e as piscinas que eram construídas para os peixes. Muitas palavras já não são o que eram. Porquê?

Um vírus nem sempre foi um vírus e uma piscina nem sempre serviu para nadar. Com o passar dos séculos, as palavras vão mudando e ganhando novos significados. São como seres vivos — mudam, envelhecem, transformam-se ou acabam por desaparecer. Mas, apesar de muitos significados acabarem perdidos no tempo, a verdade é que a maioria sobrevive corajosamente, passando intacta para a geração seguinte.

Para Margarita Correia, professora de Linguística da Faculdade de Letras [das Universidade de Lisboa], este é «um enorme fator de economia», porque a mesma palavra pode servir «para falar de coisas diferentes». «No fundo, as palavras estão sempre disponíveis para serem reutilizadas. Nós só temos as palavras de que precisamos — só inventamos as palavras de que precisamos. Quando não precisamos delas, elas caem em desuso», salientou a lexicóloga.

As mudanças de significado podem ocorrer através de diferentes mecanismos “importantes”, que nem sempre são claros para a maioria dos falantes. Isto porque, raramente «se apercebem da mudança de significado, porque esta acontece de uma forma rápida. Ocorre lentamente, por vezes no período temporal de várias gerações», explicou ao Observador João Paulo Silvestre, investigador do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa (CLUL).

E isto quer dizer o quê? Ora vejamos:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O penso que o gado comeu

Inicialmente, o verbo pensar significava «cuidar, prestar cuidado». Um penso era, por isso, um tratamento que se dava aos animais — não se davam rações ao gado, davam-se pensos. Por extensão do sentido, penso passou também a ser o cuidado e tratamento de feridas. Porém, «hoje, este nexo entre significados já não é percebido pelos falantes», referiu João Paulo Silvestre.

A extensão de sentido é apenas um de vários mecanismos que podem provocar mudanças de significado. Este «introduz novos significados na língua à medida que uma palavra, que tinha um contexto de uso muito especializado, passa a ser usada noutros contextos», explicou o investigador do CLUL.

Outro exemplo deste processo é a mudança que ocorreu com a palavra comandar. Antigamente, comandar era coisa de comandantes (ou de outros altos cargos do exército). Por extensão de sentido, comandar, uma palavra que era apenas usada em contexto militar, passou também a ser utilizada para expressar a ação de dirigir ou de dar ordens.

O solar à beira-sol plantado

Mas a mudança de significado nem sempre ocorre por extensão de sentido. Algumas palavras mudam de sentido através de um outro processo — de uma corrupção da língua. «Lembro-me sempre do caso de "solarengo"», exemplificou Margarita Correia.

Uma casa solarenga era uma casa que era parecida com um solar (um tipo de habitação), e não uma casa que apanha muito sol. Ao contrário do que geralmente se pensa, o adjetivo vem de solo, e não de solar. «Deu-se uma reanálise da palavra, e solarengo passou a ser interpretado não como solar — de casa –, mas como solar de sol», explicou a lexicóloga.

De tal modo, que até os dicionários começaram a incluir o significado. «Acredito que, daqui a umas dezenas de anos, as gerações mais jovens não vão conhecer o significado original e que este vá acabar por se perder», substituído por um que lhe foi atribuído erradamente.

Palavras à francesa

A língua francesa é uma das grandes influências (estrangeiras) do português, e foi graças a ela que muitas palavras ganharam novos significados. O processo aconteceu através da introdução do sentido original das palavras francesas, que acabou por substituir o significado antigo das portuguesas. Um bom exemplo disso é a palavra apartamento.

No sentido original da palavra, um apartamento era um afastamento ou uma separação. Foi só por influência do francês — mais especificamente da palavra appartment — que apartamento se transformou em «casa». O significado original foi, a pouco e pouco, caindo em desuso e, hoje em dia, um apartamento é quase sempre um andar de um prédio.

Com a palavra sucesso também aconteceu um fenómeno parecido. Antigamente, esta tanto podia significar um acontecimento positivo como negativo – existiam bons sucessos e maus sucessos. Por influência do francês, os sucessos passaram sempre a ser positivos.

Os vírus também têm sentido de humor

A própria criatividade dos falantes também faz com que, muitas vezes, as palavras percam o seu sentido original. Um exemplo clássico é a palavra vírus. «É uma palavra que tem uma história engraçada porque, inicialmente, significava "humor". Depois passou a significar "um ser unicelular, com características específicas"», explicou Margarita Correia.

Mas o vírus não se deixou ficar por aqui. Com o aparecimento dos computadores e o desenvolvimento da informática, a palavra começou a ser usada para descrever várias perturbações informáticas — os chamados vírus informáticos. Ou seja, «o vírus, que era uma palavra que estava associada à Biologia e à Medicina, simplesmente passou para a informátic»”. «Basicamente, o que nós fizemos foi transferir as palavras de uma área do conhecimento para outra», salientou a lexicóloga. E, agora, viral (conceito vindo da biologia) também algo que se contagia rapidamente na internet.

«Se olharmos para o computador, também vemos que muitas das coisas que nós utilizamos são metáforas. Por exemplo, utilizamos as janelas do computador — abrimos janelas –, abrimos pastas, temos um rato.» Tudo é uma metáfora. E o que é uma metáfora?

É uma espécie de comparação, mas mais rica e sugestiva, que relaciona duas realidades distintas para realçar as suas semelhanças. Usa «termos que significam coisas concretas, coisas da nossa vida, para designar conceitos que, muitas vezes, são abstratos ou longínquos em relação à realidade», explicou a professora da Faculdade de Letras.

«A metáfora é um mecanismo que utilizamos muitas vezes e inconscientemente. Se olharmos com atenção, a nossa linguagem do dia-a-dia está cheia de metáforas. Aliás, acabei de dizer uma», exclamou Margarita Correia. «Quando eu digo "a linguagem do dia-a-dia está cheia de metáforas", estou a partir do princípio que a linguagem é um recipiente e que está cheia.»

Para João Paulo Silvestre é «a criatividade dos falantes que faz com que usemos as palavras recorrendo a processos que dão novos contextos de uso e interpretações às palavras» como a metáfora, mas também como a metonímia.

A metonímia é um processo que através do qual a palavra muda de sentido em função de um conceito que lhe é “adjacente”. Por exemplo, a palavra fonte significa a nascente da água ou a bica por onde a água corre numa fonte pública. Mas também pode querer dizer outras coisas. «Claro que, por metáfora, a fonte é também a origem de qualquer coisa», salientou Margarita Correia.

«As fontes tipográficas, que é uma coisa que já não se usa, eram moldes metálicos, normalmente de chumbo, usados para imprimir as letras em papel. Nós, ainda hoje, temos as fontes nos computadores, que são os tipos de letra diferentes que podemos usar», exemplificou a professora de Linguística. «Tudo isto são mecanismos que usamos no nosso dia-a-dia para ir mudando os significado às palavras.»

Fonte

Trabalho da jornalista Rita Cipriano publicado em 26/07/2015 no jornal digital Observador.

Sobre a autora

Jornalista no jornal digital Observador.