Uma hipálage em Eugénio de Andrade - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Uma hipálage em Eugénio de Andrade

Gostaria de saber qual o valor expressivo da hipálage presente nos versos «(...) é que eu te falo das palavras/desamparadas e desertas/pelo silêncio fascinadas.», do poema O Silêncio, de Eugénio de Andrade.

Ana Goulão Estudante Lisboa, Portugal 1K

Massaud Moisés, no seu Dicionário de Termos Literários, define a hipálage da seguinte forma:

«Constitui um expediente retórico segundo o qual um determinante (artigo, adjetivo, complemento nominal) troca o lugar que logicamente ocuparia junto de um determinado (substantivo) para associar-se a outro» . 

hipálage é uma figura de linguagem caracterizada pela atribuição de uma característica de um ser ou objeto a outro ser ou objeto que se encontra próximo ou relacionado com ele. Assim, é atribuído um adjetivo a um substantivo quando na realidade esse adjetivo se refere, lógica e naturalmente, a outro substantivo.

Este recurso tem como principal objetivo aumentar a expressividade da mensagem. São conhecidos estes exemplos:

«Fumando um pensativo cigarro.» (Os Maias, Eça de Queirós)

«O silêncio desaprovador dos meus colegas.» (A queda dum anjo, Camilo Castelo Branco)

«Sobre as aldeias tristes, sobre o silêncio humilde do fumo das lareiras...» (Manhã SubmersaVergílio Ferreira)

Nos versos finais do poema O silêncio, «é que eu te falo das palavras/desamparadas e desertas//pelo silêncio fascinadas.», vemos que os adjetivos foram deslocados do sujeito poético para outro substantivo, as palavras. A expressividade fica potenciada pelo facto de se transpor para as palavras as características do sujeito: os seus sentimentos de desamparo e de solidão são transferidos para algo que o caracteriza e que tem o valor maior da comunicação. Elas carregam desta forma o estado de espírito do sujeito que é de pessimismo, de abandono, de deriva.

Por isso, verificamos que elas já não servem esse fim da comunicação e, no último verso, o fascínio pelo silêncio é confirmado: repare-se que a última palavra é fascinadas, o que a põe em destaque no poema, ainda mais pela inversão da ordem normal da frase (que seria fascinadas pelo silêncio). 

Temos uma oposição delineada: palavras vs. silêncio, em que este, impondo-se pelo seu fascínio, anula a força da comunicação.

Assim, com o emprego da hipálage, o que se destaca é o estado angustiado/pessimista do sujeito poético, reconhecendo que as suas palavras perderam valor e resvalam para a atração do silêncio. 

Maria Eugénia Alves
Áreas Linguísticas: Semântica