Recursos estilísticos num excerto: adjectivação, sinestesia, hipálage, sinédoque, personificação - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Recursos estilísticos num excerto: adjectivação, sinestesia, hipálage, sinédoque, personificação

«... Era uma manhã muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um lindo sol que não aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas, barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as saloias ainda andavam pelas portas com os seirões das hortaliças; varria-se devagar a testada das lojas; no ar macio morria à distância um toque fino de missa.»

Pretendia saber quais os recursos estilísticos, a sua expressividade e os respectivos exemplos existentes neste excerto.

Obrigada.

Rita Lopes Estudante Figueira da Foz, Portugal 11K

Vários são os recursos estilísticos presentes neste excerto de Os Maias, de Eça de Queirós:

— riqueza em adjectivação (com presença de dupla e tripla adjectivação) de valor sugestivo: «manhã muito fresca,  toda azul e branca»; «lindo sol»; «barras alegres de claridade dourada», evidenciando a preocupação do narrador em passar ao leitor  o ambiente, a luminosidade,  as cores, o movimento do quadro representado. Ao procurar recriar de forma tão rica o universo representado, recorrendo ao pormenor, o visualismo sobressai;

— a sinestesia, presente em «manhã muito fresca, toda azul e branca», «lindo sol que não aquecia»,  «varria-se devagar», «no ar macio», «morria à distância um toque fino de missa», sugerindo várias sensações ao leitor: a frescura agradável do ambiente (táctil) associada às cores (visual) e ao sol, a cadência ritmada do varrer e o som distante do sino (auditiva);

— a hipálage em «e punha nas ruas, nas fachadas das casas, barras alegres de claridade» uma vez que aqui é valorizada «a impressão pura, a percepção imediata, tirando o maior partido da cor e da luminosidade» (Dicionário de Termos Literários), evidenciando não «o objecto em si, mas o efeito que provoca no observador» (idem). Este é um dos exemplos da transposição de qualidades tipicamente queirosiana;

— a sinédoque e a personificação (ou animismo) em «Lisboa acordava», pois está aqui implícita a «transferência de significado de uma palavra para outra, por uma relação de contiguidade (o todo pela parte)» (João David Pinto Correia, «A expressividade na fala e na escrita», in Falar melhor, Escrever melhor, Lisboa, Selecções do Reader´s Digest, 1991, p. 504), uma vez que o espaço físico Lisboa representa o seu espaço social, ou seja, os seus habitantes (Lisboa = os habitantes). Assim, a presença da personificação como uma forma possível de animismo está implícita, na medida em que «este resulta da atribuição de características próprias dos seres animados a seres inanimados» (Dicionário de Termos Literários).

Eunice Marta
Tema: Figuras de estilo Classe de Palavras: substantivo
Áreas Linguísticas: Discurso/Texto; Estudos Literários