Sobre alguns aportuguesamentos - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Sobre alguns aportuguesamentos

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Gostaria de começar por referir duas palavras que encontrei em livros da editora Saída de Emergência: "dracares" e "escaldos". Fiquei chocado com estas grafias para palavras que, a mim, me parecem ser muito mais naturalmente escritas (como, aliás, sempre as escrevi,) drakars e skalds. Por diversos motivos: primeiro, são termos que procuram evocar um determinado ambiente (no caso, os livros eram de Fantasia Medieval) que "dracares" e "escaldos" falham em conseguir evocar. Segundo, chega a ser difícil até mesmo reconhecer o que significam estas palavras (admito que demorei vários segundos a aperceber-me do que queria o tradutor dizer com a palavra «escaldos»). Terceiro, sendo palavras tão específicas, faria sentido grafá-las de um modo a que se torne fácil descobrir o seu significado – e claramente haverá mais pessoas a saber o que é um skald do que um "escaldo". Por fim, não são palavras completamente assimiladas na língua portuguesa, sendo usadas com pouca frequência e quase sempre em contextos específicos (trabalhos especializados ou de Fantasia).

Dados estes pontos, não faria mais sentido o uso do termo estrangeiro? Não estaremos a chegar ao ponto em que procuramos aportuguesar com uma frequência para lá do aceitável? Vem-me à memória o assustador «blecaute» que eu vi num site da Internet — ou deveria dizer, num «sítio»? Dito isto, fico na dúvida sobre se será correcto utilizar o termo original após a oficialização da norma portuguesa: escrever dossier em vez de «dossiê», palmier em vez de «palmiê», e, já agora, blackout em vez de «blecaute». A dúvida mantém-se no caso da pronúncia: sou «obrigado», digamos assim, a pronunciar /dɾɐkaɾɨʃ/ em vez de /dɹɑkɑɹz/?

Gil Henriques Estudante Amadora, Portugal 4K

A sua argumentação a favor da manutenção da forma original dos estrangeirismos drakars e skalds parece-me válida. Todos sabemos que há estrangeirismos difíceis de adaptar (T-shirt, surf, download, abat-jour...) e outros que podem ser aportuguesados com naturalidade, sem que a sua forma cause estranheza (batom, futebol, hambúrguer, blogue).

Mas também existem, é certo, muitas palavras estrangeiras que suscitam reacções divergentes quando são incorporadas na nossa língua. Então, hesitamos entre dossier e dossiê, entre stress e estresse, entre Zimbabwe, Zimbabué e Zimbábue, multiplicando-se as grafias possíveis para esses termos em português. Quando assim é, pelo menos durante algum tempo, o facto de o aportuguesamento ter sido dicionarizado não nos impede, por si só, de usar a grafia original dos estrangeirismos (muitas vezes igualmente dicionarizada em português).

O normal é que seja a comunidade de falantes a decidir, gradualmente, como será fixada a forma dos termos estrangeiros que decide adoptar. E o mais natural é que as grafias menos usadas caiam em desuso e que as preferidas pelo maior número de falantes acabem por vingar. Veja-se como o aportuguesamento inicial uísque acabou por ser preterido em favor do original whisky, ao passo que a sandwich começou por ser sanduíche e acabou por ser abreviada para sandes.

Assim, no caso das adaptações "dracares" e "escaldos", é evidente que um tradutor sozinho pode muito pouco contra toda uma comunidade de falantes, se a intenção geral for manter a grafia original das palavras. Com a agravante, neste caso, de se tratar de termos que ainda não foram atestados nos dicionários e que são empregados em contextos muito específicos, não no discurso do dia-a-dia. No entanto, parecem-me termos facilmente adaptáveis à nossa língua, tanto mais que a Mordebe regista dracar e drácar (embora não apresente o substantivo "escaldo", nem tão-pouco skald).

Para já, portanto, eu diria que pode escrever e pronunciar esses termos como achar conveniente, sem perder de vista o objectivo de ser entendido pelos seus leitores ou interlocutores!

Sara Leite