"Scâner", mais uma vez - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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"Scâner", mais uma vez

Não fiquei nem convencido nem satisfeito com a resignação em aceitar a forma "scâner"como legítima, embora adoptada pelo distinto Dic. Academia.

Considero a argumentação apresentada pelo consulente que deu uma breve nota histórica sobre o seu primeiro uso, muito pertinente. Então os ingleses, como é hábito, vão ao Latim buscar o que lhes convém ("to scan", abreviado de "scandere", e nós, os membros da família, vamos servilmente copiar o que fizeram os bárbaros anglo-saxões, em vez de puxarmos pelos nossos pergaminhos? Não será sem protesto...

Proponho que se use "escansor", para o aparelho, "escandir" ou "escander" para o acto e "escansão" (claro que não confundir com "escanção", da área da enologia), para o resultado. E não digam que é mais complicado, porque só tem mais uma letra. E também não me parece que tenha importância uma palavra ser oxítona e a outra ser paroxítona.

Sou da opinião de que devemos ser menos acomodatícios em relação aos estrangeirismos, quando se puderem facilmente evitar ou quando eles realmente se fundam nas nossas raízes linguísticas, como este.

Alguém para erguer esta bandeira?

L. Fraser Monteiro Monte de Caparica, Lisboa, Portugal 5K

Apreciei muito a sua mensagem. O seu desejo de protecção da língua justifica o maior desenvolvimento nesta minha resposta.

Começo por sublinhar que não existe nada resignação geral na aceitação do *scâner inventado no Dicionário da Academia 2001, obra tão apreciável nalgumas coisas. Por exemplo, o recente Grande Dicionário da Porto Editora remete o termo para o inglês “scanner” e é nesta entrada que apresenta as acepções do verbete. Num nível mais modesto, escrevi (na Nota Especial sobre a 3.ª Versão do «Prontuário» da Texto) que tinha preferido o inglês “scanner” a *scâner palavra aportuguesada, porque o grupo inicial sc está banido da nossa língua desde 1931.

Esta ideia peregrina da respeitada Academia em fazer ressuscitar o grupo inicial sc só pode atribuir-se ao desejo de seguir o inglês, com a desculpa de que se baseia no latim. Ora, o latim é ainda precioso como elemento histórico de compreensão do idioma, mas quem considera a língua um organismo vivo não aceita que a adornem com flores mortas (senão teríamos de considerar a hipótese de voltar a escrever *sciência, por exemplo...).

Acontece que não foi só o (para mim, mamarracho...) *scâner que me escandalizou no laborioso dicionário da Academia. Também não consegui aceitar, por exemplo, entre outros, o *stande, o *stafe, o *stique, o *stresse. Neste caso, trata-se da adopção do grupo inicial st, que sempre se converteu na língua em es (ex.: estádio do lat. `stadiu-´), conversão aliás bem feita no mesmo dicionário em estoque (de “stock”), em estêncil (de “stencil”), em estandardizar (de “standardize”), ou nos termos bras.: estande, estique, estresse (cujo respeito e dignificação da comum língua muito aprecio).

Sempre tive a ideia de que, num dicionário, uma das suas características fundamentais fosse a coerência. Mas, enfim, aceito que esteja errado; e ocorre-me parafrasear a famosa frase atribuída, pelo «filósofo rei e rei dos filósofos» (apud Henry e Danna Thomas), ao seu heróico e amado mestre Sócrates: `como pode a menor importância das minhas opiniões competir com tamanha sabedoria?´

Para terminar, lembro que para “scanner” sugeri `escâner´; mas como eu próprio também não gosto lá muito deste termo, repito que vou continuar com o inglês “scanner” (aspas ou itálico), como continuo, por exemplo, com o francês “croissant” (aspas ou itálico), em vez de *croissã considerada palavra portuguesa e pronunciada *¦kruá¦, pois a grafia do ditongo oi pronunciada *¦uᦠé também para mim absolutamente inaceitável.

Ao seu dispor,

D´Silvas Filho