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O coloquialismo português "tá-se"

Surgiu uma controvérsia em torno da expressão «tá-se bem», a que, por curiosidade, fui dar num site de conjugação de verbos onde me surgiu o verbo "estar-se". Está todo conjugado e parece-me correcto, embora tenha dúvidas se tal pode ser chamado de verbo. Apesar da dúvida, penso que se trata de assuntos diferentes.

Portanto, no primeiro caso a dúvida é se o correcto é "tá-se", ou "tasse". No segundo caso, se existe este verbo e se o se é um pronome pessoal reflexo que depois nas diferentes conjugações se ajusta ao sujeito.

Desde já agradeço a ajuda que possa receber.

Luís Varela Controlador de qualidade Porto, Portugal 1K

A forma mais adequada não é "tasse", mas, sim, tá-se que, no registo informal, é o mesmo que está-se. A forma estar-se não é um verbo, mas antes uma possibilidade do uso do verbo estar, ao qual se – que é um pronome pessoal, o que significa que o verbo é conjugado pronominalmente – só se associa em certas condições.

Tradicionalmente, está-se e sua variante tá-se (esta só pode ocorrer informalmente) não costumavam ocorrer isoladamente, constituindo por si sós uma frase. No entanto, em associação com um advérbio, faziam e fazem todo o sentido; p. ex.:

1. Aqui está-se/tá-se bem.

Em 1, o se é equivalente a alguém ou até a nós e «a gente», em sentido genérico. Este uso parece estar na origem de dois modismos que têm hoje grande difusão no português de Portugal, sobretudo entre a população mais jovem: «tá-se bem», ou mais simplesmente «tá-se». Nestas duas expressões, figura a forma popular de estar, tar (não se encontra em dicionários gerais1), na 3.ª pessoa do singular do presente do indicativo , isto é, a forma verbal correspondente a ele ou ela. A variante tar surgiu por queda da sequência es- de estar, isto é, por aférese de es-2.

Convém ainda dizer que certas páginas eletrónicas dedicadas à conjugação verbal devem ser consultadas e apreciadas com algum cuidado, justamente porque podem não tratar a informação gramatical de forma mais adequada, como é o caso "estar-se", que como verbo não tem existência autónoma. O que existe efetivamente é o verbo estar, eventualmente associado a pronomes pessoais:

2. Ele está-se a aborrecer sem razão [equivalente a «ele está a aborrecer-se sem razão»]

Em matéria de esclarecimentos gramaticais em linha, recomendamos a consulta das nossas páginas ou de recursos como o Portal da Língua Portuguesa, os dicionários da Infopédia ou o dicionário da Priberam.

1 Guilherme Augusto Simões, no seu Dicionário de Expressões Populares Portuguesas (Lisboa, D. Quixote, 1994), regista tar, como «corruptela de "Estar"».

2 Sobretudo típica dos dialetos brasileiros é a interjeição , abreviação de «está bem». Sobre este marcador discursivo, o Dicionário Houaiss refere que «expressa concordância» e é equivalente a «sim» e «está bem»: «tá, então vamos comer» (exemplo da fonte consultada).

Carlos Rocha
Tema: Variedades linguísticas Classe de Palavras: locução