O acento gráfico de família - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
O acento gráfico de família

A palavra família tem acento. Contudo os jazigos do Cemitério dos Prazeres [...] [em Lisboa] têm uma grande percentagem de inscrições com família sem acento.

Estou a fazer uma recolha de letras dos jazigos e verifico que a iliteracia tipográfica é frequente contrastando com o investimento arquitectónico: problemas de espaçamento (entre letras e entre palavras), de escolha tipográfica (o novo jazigo dos escritores portugueses é um bom exemplo, mas até um em Comic Sans encontrei), de boa anatomia das letras, de composição (o do Jaime Cortesão…) etc. Mas intrigou-me bastante o aparecimento muito frequente da palavra família sem acento.

A acentuação da palavra é uma coisa recente (muitos dos jazigos vêm do século XIX e os mais recentes podem ter querido grafar à antiga para sugerir a tradição familiar)?

Obrigado pela ajuda desde já.

Gonçalo Falcão Professor Lisboa, Portugal 42

Só com a Reforma Ortográfica de 1911 é que se passou ao uso sistemático de acentos gráficos de acordo com regras.

Com efeito, os acentos gráficos eram pouco usados antes do século XX, segundo a linguista Rita Marquilhas (em Ivo Castro etal., A Demanda da Ortografia Portuguesa, 1987, p. 110):

«A questão da acentuação tornou-se a partir [de finais do século XVI], e até aos gramáticos oitocentistas, completamente pacífica. Instituiu-se o uso de, no caso de cada contexto específico, se poder optar entre a marcação do acento e o silêncio em relação a ele. A única regra a respeitar seria a de evitar o máximo de ambiguidade de sentido.»

E, na verdade, consultando o Thesouro da Lingua Portugueza (1871), de Frei Domingos Vieira, vê-se que aí se escreve familia sem acento agudo, tal como acontece a lingua, que aparece com esta mesma grafia, sem acento gráfico no próprio título. 

É também possível que a ausência de acento ocorra por uma das seguintes hipóteses:

a) se a grafia for posterior à Reforma de 1911, sabe-se que houve grande resistência à nova ortografia, pelo que é possível que a falta de acento gráfico se deva a esta atitude;

b) antes ou depois da Reforma de 1911, sobre as maiúsculas, não é de excluir que a ausência de acento gráfico se deva a dificuldades de índole tipográfica associadas à imitação de um procedimento francês (ver artigo sobre o usos de acentos gráficos sobre maiúscula num artigo da Wikipédia em francês).

Dito isto, diga-se que não é impossível que em muitas lápides haja erros efetivos.

Carlos Rocha
Tema: História da língua Classe de Palavras: substantivo