«O Dicionário Terminológico opera a distinção» entre oxímoro [ou oximoro] e paradoxo e, de facto, as seguintes três obras (por exemplo) confirmam-no:
1 No Dicionário de Termos Literários (1978), de Harry Shaw (traduzido do inglês e adaptado por Cardigos dos Reis):
«Oximóron ou oximoro
Figura da linguagem em que se combinam duas palavras ou frases de sentido contraditório para tirar efeito retórico desse conciso paradoxo. A expressão «eloquente silêncio», por exemplo, é uma [sic] oximóron. O famoso soneto de Camões "Amor é fogo que arde sem se
ver", além daquele [oxímoro] que se inclui neste verso inicial, contém mais uma série de oxímoros.»
«Paradoxo
(1) Afirmação contraditória ou absurda, na aparência, mas que efectivamente contém uma possível verdade; (2) uma proposição falsa, que se contradiz nos seus termos; (3) uma opinião ou afirmação contrária às ideias geralmente aceites. Shakespeare utilizou um paradoxo quando escreveu: "Os covardes morrem muitas mortes antes da deles." A observação de Wordsworth "A criança é o pai do homem" é um paradoxo.»
(2) No Dicionário Breve de Termos Literários (1997), de Olegário Paz e António Moniz:
«Oxímoro [Do gr. oxymóron] Figura de estilo que intensifica o processo retórico da antítese, ao aproximar termos (substantivo/adjectivo) que se excluem. Daí se dizer que o oxímoro é a expressão do paradoxo: "silêncio eloquente", "terrível bondade". Sugere, assim, a conciliação de entidades que se opõem: "[Amor] É um contentamento descontente" (Camões)».
«Paradoxo [Do gr. parádoxon, pelo lat. paradoxon] Consiste na atribuição de efeitos contraditórios à mesma realidade, entrando, assim, no domínio do absurdo.
Em Literatura, corresponde a uma figura de estilo semelhante ao oxímoro, distinguindo-se dele do ponto de vista gramatical por ser uma frase e não uma expressão: "Esta chama que alenta e consome,/ Que é vida – e que a vida destrói –/ Como é que se veio a atear,/ Quando – ai quando se há-de ela apagar?" (Almeida Garrett)».
(3) Na obra Elementos de Retórica Literária, de Heinrich Lausberg, num registo muito mais minucioso, reitera-se essa distinção entre o oxímoro, que é «uma variante especial da antítese de palavras isoladas», fazendo-se alusão às expressões latina, grega e portuguesa que o reflete — «oxymora verba, ὀξύμωρον; [port. oximoro]» — e «que constitui, entre os membros antitéticos [as tais (duas) palavras ou (dois) termos], um paradoxo intelectual» (p. 230).
O Dicionário de Literatura (dir. de Jacinto do Prado Coelho, da Academia das Ciências e da Faculdade de Letras de Lisboa), não abrindo um verbete para paradoxo, é claro em relação ao significado de oxímoro:
«Oximoro. Expressão de um paradoxo. Aproxima-se da antítese, mas representa em relação a ela uma intensificação, porque, enquanto a antítese confronta duas ideias contraditórias, o oximoro exprime uma contradição no seio de um juízo: os dois termos que a constituem excluem-se mutuamente.
O interesse do oximoro é chamar a atenção para uma verdade profunda em que os conceitos vulgares perdem a sua nitidez e é possível uma conciliação de contrários. Quando é mais do que simples malabarismo conceptual, implica uma nova visão das coisas.»
Exemplos:
«Amor é fogo que arde sem se ver,/ É ferida que dói e não se sente,/ É um contentamento descontente,/ É dor que desatina sem doer;/ É um não querer mais que bem querer,/ É solitário andar por entre a gente,/ É um não contentar-se de contente,/É cuidar que se ganha em se perder» (Camões); «Saudade, gosto amargo de infelizes,/ Delicioso pungir…» (Almeida Garrett); «Mas quanto mais procure não te ver,/ Quanto mais fecho os olhos, mais te vejo» (Castro); «minha mão tosca te agarrou com uma dura, inocente culpa.» (Cecília Meireles).
O E-Dicionário de Termos Literários, de Carlos Ceia, sobre a palavra paradoxo, apresenta a informação «Verbete por redigir», mas sobre o vocábulo oximoro pode ler-se:
«Na retórica, consiste na combinação e expressão de vocábulos paradoxais. Aproxima-se da antítese, porém no oximoro ambos os termos se excluem, a fim de revelar que a conciliação de contrários é possível e, por vezes, indispensável para se exprimir a verdade. Veja-se o caso da novela de Mário de Sá-Carneiro Eu Próprio o Outro ou do célebre "Amor é fogo que arde sem se ver,/É ferida que dói e não se sente", de Luís de Camões. Poder-se-á considerar este recurso estilístico como uma "antítese lexical", isto é, o objectivo do oximoro é intensificar, ainda mais do que antítese, a junção paradoxal, vincando que o confronto de duas palavras ou ideias opostas e incongruentes permite valorizar a força expressiva, muitas vezes para despertar o efeito epigramático. Este recurso, apreciado em particular pelos poetas barrocos, românticos e modernistas, não é um obstáculo para o raciocínio, de tal forma que o possa conduzir a uma situação sem saída. Pelo contrário, é uma figura que se situa no campo do sentido conotativo, ajudando a definir determinados conceitos de difícil explicação. A expressão popular "ilustre desconhecido" exemplifica a sua utilização quotidiana e inconsciente.»
O Dicionário da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, considera oximoro/oxímoro um «recurso estilístico», apresentando uma entrada no domínio da «LITERATURA, RETÓRICA»: «que combina palavras ou expressões com sentidos opostos ou contraditórios, criando um contraste que intensifica a mensagem que se pretende transmitir». Para paradoxo, em «RETÓRICA», apresenta o significado «enunciado de uma afirmação contrária à opinião do juiz ou contrária ao senso comum», e o exemplo «Graças a Deus, sou ateu!» (paradoxo semântico).
Conclusão
Parece ser possível concluir que a definição de oxímoro, proposta pelo Dicionário Terminológico, e atestada em bibliografia diversa, assenta no facto de determinada oposição se exprimir, de forma concisa, através de «duas palavras» (como vimos, não existe este peculiar rigor em muitos exemplos), ou «dois termos» que «se excluem mutuamente», exatamente por desafiarem um raciocínio entendido como lógico (muitas vezes como exercício ou reflexo de uma pretensa ironia): uma madrugada que é, simultaneamente, «triste» e «leda»; um amor «que arde», mas não se vê, que «dói», mas «não se sente», que é, simultaneamente, um «contentamento descontente» ou um sentir-se «solitário» no meio de «gente» (contrastes muito interessantes criados pelo sujeito poético para definir uma realidade — o «Amor» — que, por natureza, pode desencadear sentimentos tão aparentemente antagónicos); um «silêncio» que é «eloquente»; uma «bondade» que é «terrível». O exemplo da «hipocrisia tão santa» (Vieira), à luz do que pudemos ler nestas obras consultadas, parece-me um oxímoro (e não um paradoxo): a concisão materializada no uso de um nome (hipocrisia) e de um adjetivo no grau superlativo absoluto analítico («tão santa»), os tais dois elementos que se anulam; a conjugação destes dois termos desafia o tal raciocínio lógico, denotando-se a fina ironia a que o Padre António Vieira nos habituou – por debaixo daquela aparência modesta e inofensiva do polvo, existe uma maldade latente que, no momento certo e de surpresa, é usada para atacar outros peixes (o orador usa este recurso expressivo para criticar a falsidade, a dissimulação, o fingimento).
A noção de paradoxo caracteriza-se, precisamente, pela ausência da concisão que o oxímoro reflete, apresentando-se sob a forma de uma frase, que traduz uma proposição, um juízo de valor, aparentemente contraditório ou absurdo, a partir do qual se conclui uma qualquer oposição ou desafio de lógica, mas suscetível de conter uma verdade possível: em «Graças a Deus, sou ateu!» (exemplo sugerido no Dicionário de Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa), «Deus» e «ateu» não são necessariamente opostos, nalguns contextos complementam-se, mas a interpretação que fazemos da frase é a de que parece ser paradoxal (ou absurdo) ser «ateu» e, ao mesmo tempo, agradecer a um «Deus», em quem não se acredita, por esse facto [«ser ateu»]. Em «Esta chama que alenta e consome,/ Que é vida — e que a vida destrói —/ Como é que se veio a atear,/ Quando – ai quando se há-de ela apagar?», de Almeida Garrett (do poema “Este Inferno de amar”), o “eu” lírico deixa claro que a «chama» (paixão) que fortalece, que dá alento e vida à alma é a mesma que, paradoxalmente, assume um carácter destrutivo; este sentimento alimenta a alma, mas pode causar sofrimento, pode destruir a paz, a serenidade. Existe um juízo de valor que parece desafiar a lógica, sob a forma de uma longa frase interrogativa (não existe a concisão própria do oxímoro, que dois termos, ou vocábulos, refletiriam).
Observação:
A palavra oximoro/oxímoro surge grafada, nas várias obras consultadas, com ou sem acento gráfico: oximoro, palavra grave ou paroxítona quanto à acentuação, pois a sílaba tónica é mo, e oxímoro, palavra esdrúxula ou proparoxítona quanto à acentuação, uma vez que a sílaba tónica é xí (do grego ὀξύμωρον [«oksúmoron, ou 'id.', neutro substv.», in Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa]).
Bibliografia consultada:
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2009).
Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa (2009).
Dicionário da Língua Portuguesa, Academia das Ciências de Lisboa.
Coelho, Jacinto do Prado (dir.). Dicionário de Literatura. Academia das Ciências e da Faculdade de Letras de Lisboa.
Paz, Olegário e António Moniz (1997). Dicionário Breve de Termos Literários. Editorial Presença.
Shaw, Harry (1987). Dicionário de Termos Literários (traduzido do inglês e adaptado por Cardigos dos Reis).
Lausberg, Heinrich (1967). Elementos de Retórica Literária. Tradução, prefácio e aditamentos de R. M. Rosado Fernandes. Fundação Calouste Gulbenkian.