Novamente mídia, média e "media" - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Novamente mídia, média e "media"

A directa assimilação de palavras estrangeiras, adaptadas à grafia ou à fonética, não é novidade em Portugal.

É de estranhar que os léxicos portugueses incluam uma "corrupção" fonética do termo inglês media (em inglês diz-se "mídia") que é usado em diversos contextos com significados diferentes:

— meios de comunicação social, suportes de dados, formatos de ficheiros áudio e vídeo.

Das novas palavras relativas à ciência computacional já inseridas nos dicionários e que por não terem correspondências ou homónimos foram adaptadas ao novos significados: clique/clicar (click), disquete (diskette), formato/formatar (format), etc.

Ser contra estes estrangeirismos é no mínimo bacoco, pois o vocabulário provém do inglês e contra isso não há nada a fazer, excepto evitar as divergências entre original, o significado e a sua tradução.

Dada a troca de sons, do inglês para português, o e inglês diz-se "i", devia-se neste caso particular de media adoptar a fonética em detrimento da grafia. Ou seja "mídia".

O principal problema é que as crianças e os jovens que se deparam com a palavra media ou média ambas com significados muito diferentes da palavra original em inglês. Se por um lado media é um tempo do verbo medir («eu/ele media»), média é o «quociente da divisão de uma soma pelo número das parcelas».

A minha pergunta é: como é que se pode "oficializar" um "erro de dicção de uma palavra inglesa" em dicionários respeitáveis, perpetuando assim esse erro, e afectando de sobremaneira a credibilidade dos responsáveis desses dicionários que aparentemente não sabem falar inglês?

Pedro Barreira Tradutor de Ubuntu Linux Lisboa, Portugal 29K

Em português europeu, a forma média, como equivalente do inglês media, redução de mass media,1 não é erro de dicção. O que acontece é que o inglês media, pronunciado aproximadamente como "mídia", é adaptação fonética do latim, media, plural do adjectivo neutro substantivado medium, que, em português, deu origem às palavras meio, por via popular, e a médio, por via erudita.

No Brasil, fez-se o aportuguesamento fonético e gráfico de media por via do inglês norte-americano, daí mídia (ver Dicionário Houaiss). Em português europeu, optou-se pela forma latina original, pronunciada "média": sendo assim, a adaptação fonética e gráfica do latim media é, na variedade lusitana, média, palavra convergente e homónima de média, «valor definido como uma grandeza equidistante dos extremos de outras grandezas» (idem).

É verdade que se revela sempre incómodo aumentar o número de homónimos, pelas confusões a que estes podem dar azo. Pode-se argumentar que o problema deixa de existir, quando se verifica que média, «meios de comunicação (de massas)», tem o género masculino, assim se distinguindo de média, «valor equidistante», do género feminino. Mas justamente porque média é um plural masculino anómalo, tem-se recomendado, para o português europeu, o emprego da forma latina media, entre aspas ou em itálico, de forma a evitar quer o anglicismo fonético quer a homonímia com média, substantivo feminino.

1 Sobre a etimologia de mídia, lê-se na versão brasileira do Dicionário Houaiss (2001): «ing[lês]-n[orte]-am[ericano] media (1923) 'id.', red[ução] de mass media "meios (de comunicação) de massas" < lat[im] media neutro pl[ural] lat[ino] de medius, a, um "meio; instrumento mediador, elemento intermédio"; a palavra e a pronúncia inglesas (em especial, a pronúncia norte-americana) se exportaram, graças ao seu maciço poder de cultura, comércio e finanças, manifesto em particular, no caso brasileiro, nas agências de propaganda comerciais [...].»

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: substantivo