Hífen em compostos morfológicos, h interior - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Hífen em compostos morfológicos, h interior

Uma das minhas actividades é a revisão de textos e tenho-me deparado com uma dificuldade em particular para a qual não encontrei ainda respostas satisfatórias.

Gostaria de saber se existe alguma norma para a grafia de certos termos compostos utilizados nos vários ramos das ciências. Refiro-me, nomeadamente, a exemplos como os seguintes: "sócio-económico" ou "sócio-político", que tenho visto como "socioeconómico" ou "sociopolítico" respectivamente. Mas, se a estes acrescentarmos mais uma palavra, como por vezes acontece, teremos "sócio-político-económico", "sociopolítico-económico", "sociopolíticoeconómico" ou alguma outra variante? É que a eliminação dos hífens e a pura justaposição das palavras torna-se progressivamente mais difícil de ler.

Por outro lado, a prática, ao que parece generalizada, de eliminar os hífens traduz-se por vezes em resultados um tanto ou quanto insólitos, como por exemplo "imunohemoterapia" ou, pior ainda, "parathormona". Aliás, a respeito destes dois últimos exemplos, gostaria de saber se os campos da medicina e da farmacologia ou da química, para citar apenas estes, estão isentos, na sua terminologia específica, de terem de se submeter às regras linguísticas.

Pergunto isto, por já ter visto termos como "dehidrohepiandrosterona" ou "hidroxietilcelulose" (sem qualquer hífen) ou como o incrível "cloridrato de trans-4-[(2-amino-3,5-dibromobenzil)amino]-ciclohexanol" — com os hífens e os parênteses exactamente como indico aqui.

Onde poderei então encontrar indicações fiáveis (?!) relativamente à utilização ou não dos hífens?

Obrigado!

Luís Afonso Revisor de textos Queluz, Portugal 9K

Antes de comentar cada um dos casos referidos pelo consulente, importa saber que o consulente foca dois casos diferentes de composição: um é o percurso de sócio- ou socio- como elemento antepositivo de composição erudita; outra é a questão geral da grafia dos compostos eruditos. Em ambas as situações as normas gráficas aplicadas têm sido, em Portugal, as do Acordo Ortográfico de 1945 (Base XXIX). As normas a introduzir com o novo Acordo Ortográfico são as que constam da Base XVI do mesmo.

1. Pedimos o parecer de D'Silvas Filho sobre a grafia de palavras que incluam o elemento sócio-:

«Rebelo Gonçalves, no seu Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, recomenda: "Nos compostos em que entram, morfològicamente individualizados, um ou mais elementos de natureza adjectiva terminados em o e uma forma adjectiva", deve-se usar o hífen. Exemplos da obra: "africano-árabe", "físico-químico-naturais". Nesta ideia e considerando sócio um adjectivo, na alternativa aceite pelo Dicionário Houaiss, eu escreveria: sócio-político, e sócio-político-económico.

Note, porém, que o léxico já regista sociopolítico e socioeconómico. As justificações de Rebelo Gonçalves são difíceis de sustentar presentemente, pois pouca gente consegue descortinar hoje a origem grega ou latina dos agrupamentos de letras para poder escolher convenientemente, e, além disso, o uso muitas vezes ignorou essas regras.

Por outro lado, não posso recomendar a fusão dos três elementos, para se ter uma unidade mórfica, como se teria em sócio-político-económico, pois, como muito bem refere, a índole da língua é avessa a palavras muito longas fundidas numa só.

Então, poderia escrever «simultaneamente sociopolítico e socioeconómico». Claro que estilisticamente não é a mesma coisa. Ora lembro que a inovação sensata enriquece a língua. O inovador não deve escandalizar a comunidade linguística, mas, também, não pode sentir-se sempre escravo das convenções, senão está inibido de inovar… Por isso, eu corro o risco de preferir sócio-político-económico (se a ideia é dar igual importância a cada um dos factores).»

Acrescente-se que os comentários e as sugestões de D'Silvas Filho não invalidam a opção de retomar a forma plena de palavras reduzidas como sócio- numa estrutura de coordenação: «social, político e económico.»

Convém lembrar que sócio- se confunde com socio-, que faz parte de sociologia e sociolinguística. Nestes substantivos não tem de haver hífen, conforme o Acordo de 1945; mas em sociológico também não há hífen, uma vez que se trata do prefixo socio-. Do mesmo modo, sociolinguístico não é hifenizado, porque socio- é um prefixo, e o adjectivo derivado de sociolinguística significa «relativo à sociolinguística» e não «social e linguístico». É curioso observar que Rebelo Gonçalves, no Vocabulário da Língua Portuguesa, de 1966, não acolhe as palavras que acabo de mencionar, mas estabelece as formas sociopsicologiasociopsicológico, este sem hífen. Depreende-se que o critério para a ausência de hífen na forma adjectival é semântico, porque quer dizer «relativo à sociopsicologia» e não «social e psicológico».

Temos aqui condições que favorecem a construção de formas como socioeonómico, que, como observa D´Silvas Filho, deveria ser realmente sócio-económico, quando significa «social e económico». A existência de substantivos como sociologia e, com os respectivos adjectivos sem hífen, criou as condições para a criação de um prefixo que vê alterados o significado e a funcionalidade originais por recomposição ou reanálise. O mesmo é dizer que estamos perante um falso prefixo ou prefixóide, como acontece com auto-, quando significa «relativo ao automóvel» (auto-estrada) ou tele-, quando remete para televisão (telenovela). O uso de hífen com este tipo de prefixos pode ser bem caprichoso, impondo cada um as suas restrições.

Observe-se ainda que a história dos elementos sócio- e socio- tem a interferência do francês científico, segundo se conclui das indicações do Dicionário Houaiss:

«antepositivo, do fr. socio-, depreendido do rad. de social `social´ e de société `sociedade´, der. do lat. socĭus,ĭi `companheiro, sócio, aliado´; ocorre em vários compostos do sXIX em diante, com a idéia de `social, sociedade´ [...].»

Em suma, o uso impôs o elemento de composição socio-, e daí escrever-se socioeconómico, sociopolítico. Seria certamente mais coerente escrever sócio-, com hífen e acento agudo, justamente para mostrar que a forma era originalmente um elemento de natureza adjectiva, uma redução de social. Mas quando sócio- surge associado a outros elementos de natureza adjectival, é legítimo regressar aos preceitos de Rebelo Gonçalves e escrever como D´Silvas Filho sugere: sócio-político-económico.

2. Em relação aos outros compostos, as regras gráficas vigentes (e mesmo as do novo Acordo Ortográfico) não permitem sequências como <th>, <ph> ou, com o som [k], <ch>, as quais poderiam surgir do encontro de elementos de origem grega ou latina que participam de compostos eruditos. No citado Tratado de Ortografia, publicado em 1947, definem-se duas normas:

«2) É inadmissível o uso do hífen nos compostos em que um elemento de origem substantiva, proveniente do grego ou do latim e terminado em o, se combina com um ou mais elementos substantivos ou adjectivos. Em tais compostos faz-se sempre a união completa dos elemento iniciais imediatos.» (pág. 250)

Exemplos (ibidem): broncopneumonia, encefalomedular, gastrepatite, zigomatolabial (origem grega); auriculoventricular, dorsocostal, mucopurulento, temporomaxilar (origem latina).

Os exemplos seleccionados pertencem ao registo da medicina. Mas os casos apontados pelo consulente, que se relacionam com a farmacologia, seguem o mesmo princípio. Desta maneira, se acontecer que há encontro de vogais iguais entre a sílaba final do primeiro elemento e a primeira do segundo, procede-se à contracção ou à supressão de uma dessas vogais. Contudo, as palavras em questão apresentam algumas dificuldades de formação. Sobre este aspecto, consultámos dicionários gerais e especializados disponíveis e pedimos também o parecer de D´Silvas Filho. Analisemos cada caso:

A. paratormona

Trata-se de termo registado no Dicionário Médico de L. Manuila et al. (Lisboa, Climepsi) como sinónimo de hormona paratiroideia; este dicionário dá como termos estrangeiros equivalente o francês parathormone e o inglês parathormone. A sequência parat- é redução de paratiroideia, motivada por idênticas reduções nos termos equivalentes francês e inglês (ver também o Dicionário de Termos Médicos de Manuel Freitas e Costa, Porto, editora, 2005). Esta palavra é, pois, uma amálgama, resultando da truncação de paratiróide associada a hormona.

B. imunoemoterapia

Esta forma é preferível a "imuno-hemoterapia", justamente para respeitar o princípio de Rebelo Gonçalves atrás enunciado. A junção do elementos de composição (imuno- e hemoterapia) determina a supressão do <h> do segundo elemento.

C. "deidroepiandrosterona"

Registado no Dicionário de Termos Médicos de Manuel Freitas e Costa (Porto, Porto Editora, 2005) com o significado de «hormona androgénica» e sinónimo de deidroandrosterona. Assinale-se que este dicionário acolhe formas em que o elemento de- tem como alternativa des-: deidrase e deidogenase vs. desidrase e desidrogenase. Uma vez que de- é muitas vezes uma adaptação pouco adequada do inglês de-, do ponto de vista etimológico, o mais correcto será usar des- e escrever desidroepiandrosterona.

D. hidroxietilcelulose

D´Silvas Fiho considera que «temos de aceitar hidroxietilcelulose, pois se trata da união do antepositivo hidroxi- com etilcelulose (existe, por exemplo, dicionarizada hidroxiácido)».

E. "cloridrato de trans-4-[(2-amino-3,5-dibromobenzil)amino]-ciclohexanol"

D´Silvas Filho considera que «o que se segue à preposição de não é uma palavra da língua portuguesa, mas um arranjo alfanumérico, no qual o hífen e os parênteses são símbolos tão legítimos como as letras e os algarismos».

Em conclusão, há de facto princípios que regem a formação de compostos de elementos gregos e latinos. Além disso, é necessário estar alerta em relação a adaptações apressadas de línguas estrangeiras, sobretudo do inglês, por os referidos elementos de formação não terem estrutura morfológica e gráfica igual à portuguesa, e os critérios que as regem poderem ser diversos dos aplicados ao português. Contudo, há palavras e expressões das áreas de especialidade em causa que estão sujeitas a normas próprias, que terão de ser mantidas na adaptação portuguesa, como se mostra no último exemplo, em que intervém um código alfanumérico.

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma
Áreas Linguísticas: Morfologia Construcional; Ortografia/Pontuação Campos Linguísticos: Composição; Hifenização