Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
«Deixar alguma coisa a alguém»
vs. «deixar alguma coisa com alguém»

O correto é dizer «deixei à Joana recado à Maria», ou «deixei com a Joana recado à Maria»?

Eu poderia dizer, simplesmente, que deixei recado à Maria, mas quero explicitar a quem incumbi de transmitir à Maria o recado que lhe deixei. Aqui, no Brasil, dizemos, comumente, «deixei com a Joana recado à Maria», mas acredito que esta forma não seja adequada à norma padrão do português, seja brasileiro, seja europeu, pois quem deixa algo o deixa a alguém, e não com alguém, salvo melhor juízo.

Procurei exemplos em corpos linguísticos (prefiro esta forma ao plural latino corpora: é tradução correta?) do português, mas encontro sempre «deixar recado a alguém», sem que se explicite a/com quem se deixou o recado a outrem.

Rodrigo Vasconcelos Advogado Belo Horizonte, Brasil 1K

O verbo deixar tem um alto grau de polissemia e, portanto, é natural que, entre os seus vários usos sintáticos, possam ocorrer certas interferências. No sentido de «dar, entregar», os dicionários de verbos (p. ex. Dicionário Houaiss) indicam que o destinatário é marcado como um objeto indireto, isto é, como um complemento introduzido pela preposição a, o que faz de «deixei à Joana recado à Maria» uma frase indiscutivelmente correta.

No entanto, há dois pontos a considerar:

1. Sobre a aceitabilidade de a preposição com poder substituir a na frase em questão, observe-se que, se o objeto direto for realizado por uma expressão nominal que refira uma pessoa, é correto empregar com, sendo o complemento preposicionado interpretável como o mesmo que «na companhia de»:

(a) « Também pensara que o menino se acabasse, morresse. Voltando para o Araticum, quis trazê-lo para junto de si. A mulher metera na cabeça deixá-lo com o padre. E que ele ficasse por lá mesmo» (José Lins do Rego, Pedra Bonita, 1938, in Corpus do Português).

Esta construção pode ser transposta de modo a realizar o objeto direto com um substantivo de denotação abstrata e o objeto indireto com um substantivo concreto aplicável a pessoas:

(b) «O senhorio perseguia-o; ele fugia e deixava com a mulher o encargo de explicar os atrasos» (Lima Barreto, Clara dos Anjos, idem).

Não se pode dizer que esteja errado este uso, não atestável em textos de Portugal a partir da consulta do Corpus de Português. Diga-se, portanto, que é um uso que a escrita literária não abona frequentemente, mas que a sintaxe e semântica do português em geral podem abranger e tolerar, porque o valor «na companhia de» pode ser entendido como metáfora, uma vez que, pragmaticamente, «deixar algo com alguém» é «deixar algo a alguém temporariamente».

2. Ainda quanto à frase «Deixei à Joana recado à Maria», observe-se que também é gramatical dizer/escrever «deixei à Joana recado para a Maria» e até «deixei recado à Joana para a Maria» de modo a distinguir claramente o beneficiário do recado («para a Maria»).

Carlos Rocha
Tema: Variedades linguísticas Classe de Palavras: verbo
Áreas Linguísticas: Léxico; Semântica; Sintaxe Campos Linguísticos: Funções sintácticas; Regência