Dicionário de Calão e Expressões Idiomáticas - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Dicionário de Calão e Expressões Idiomáticas
José João Almeida
Guerra e Paz, 2019 2K   

Avacalhar, que significa «dizer disparates, estragando uma conversa ou uma situação», confundir a obra-prima do mestre com a prima do mestre de obras, que é o mesmo que «trocar tudo», não fazer puto, ou seja, «não fazer nada», ou passar-se dos carretos, isto é, «ficar irritado, descontrolar-se», são alguns exemplos das mais de 3300 entradas que constituem este dicionário (editora Guerra e Paz). Fruto da iniciativa de José João Almeida, professor auxiliar do Departamento de Informática da Escola de Engenharia da Universidade do Minho (UM), com a participação de Alberto Simões, também docente na UM, trata-se da versão impressa de um dicionário aberto em linha, compilado no contexto do projeto Natura, desenvolvido na Universidade do Minho. Este recurso tem evoluído ao longo dos anos, graças ao contributo de vários colaboradores, assim possibilitando o registo regular de novas entradas que correspondem a palavras e expressões quer antigas quer recentes.

Não se reclamando a exigência ou o rigor da lexicografia,  observa-se na breve "Nota Editorial" introdutória que «[...] este dicionário deve ser olhado como uma colecção amadora, incompleta e  em processo constante de renovação [...]»1. Também aí se reconhece a heterogeneidade do material coligido, que inclui «[...] desde ameaças de cariz mais infantil, a expressões mais fortes, sempre tendo em vista um sentido lúdico e humorístico, nunca académico».

A estrutura de cada artigo é bastante simples, compreendendo a entrada, a respetiva definição e, eventualmente, alguns sinónimos. Contudo, a muitos verbetes juntam-se marcas de uso mais ou menos extensas que podem ser relativas à distribuição geográfica de um termo; é assim que se assinala, por exemplo, súrbia, «cerveja», e masteigada, «mixórdia», como típicos do norte de Portugal, enquanto se identificam buba, «bebedeira», e garina, «rapariga, garota», com os dialetos meridionais deste país. Do mesmo modo, não são esquecidos termos e usos correspondentes às variedades linguísticas do Brasil, como é o caso de mandar-se, «fugir», ou ir peneirar o fraque, com sentido semelhante. É frequente incluir ainda indicações sobre a situação de comunicação a que se adequa um item, empregando-se para tanto uma classificação que distingue sete registos cujas denominações têm o seu quê de jocoso quando distinguem tipos de calão: erudito, normal, coloquial, calão, calão carroceiro, calão muito carroceiro e calão estupidamente carroceiro.

Surpreendente na consulta deste dicionário é verificar como a linguagem, sobretudo a popular, se socorre de todo a espécie de léxico no intuito de dar expressividade ao discurso. Não admira, pois, que se encontre o híbrido miúda-jacking – um barbarismo, como dirão os puristas – , usado no sentido de «manobra reprovável que consiste no acto de, descaradamente, roubar a namorada a alguém», decalcado do inglês carjacking, «assalto com roubo de automóvel»; ou que a história recente de Portugal fique documentada pela expressão dar(-me) cabo da troika, «dar(-me) preocupações». Noutros casos, a tradição perdura pela sonoridade, quando se diz tanas, badanas e barbatanas, para exprimir repúdio. É igualmente notável a frequência de certos verbos em construções fixas, bastando lembrar fazer, que figura em toda a espécie de expressões, das mais acintosas às mais inocentes: fazer da merda pão (=«fazer o impossível»), fazer chispa e patanisca (=«envolver-se numa grande discussão, esgrimindo argumentos»), fazer tibórnias (=«fazer mixórdias»), etc.

Enfim, a diversidade e a atualidade marcam este novo dicionário, que não desmerece de outros disponíveis. E, havendo reedições em papel, não será descabido juntar à sua despretensão o eventual aperfeiçoamento que a linguística lhe puder sugerir.

 

1 Este dicionário mantém a ortografia usada em Portugal antes da vigência do Acordo Ortográfico de 1990.

 

Carlos Rocha