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Sobre a escrita dos números, das horas e de outras representações
Sobre a escrita dos números, das horas
e de outras representações

Quarto texto de uma série de artigos – ler "Unidades Maltratadas", "Sobre nome e símbolos das unidades físicas" e "Os prefixos SI: uso, escrita e simbologia" – que Guilherme de Almeida, autor de Sistema Internacional de Unidades – Grandezas e Unidades Físicas, Terminologia, Símbolos e Recomendações, escreveu para o Ciberdúvidas, a respeito das normas que definem a terminologia e os símbolos usados no discurso técnico-científico.

 

 

Deve escrever-se 1500, 1.500 ou 1 500? E se houver mais algarismos, será, por exemplo, 15000, 15.000 ou 15 000? Será correcto escrever 15H00? E registar que um acontecimento demorou 42 seg.? A escrita dos números e das horas segue um conjunto de regras que convém conhecer.

Para facilitar a leitura dos números extensos, estes podem ser subdivididos em grupos de três algarismos. Não é obrigatório, mas é conveniente e útil. No entanto, quando isto se faz, a separação não é qualquer uma. O separador das classes de milhares é um espaço, nunca um ponto:

Escreva-se 24 000, e não 24.000; é mais fácil ler 36 720 000 do que 36720000.
(Nota: Nos Estados Unidos da América utiliza-se uma vírgula como separador de milhares).

Nos números de quatro algarismos não se faz separação:

Escreva-se 2015, e não 2 015 (nem 2.015).
Exceptua-se os casos em que os números estejam escritos juntamente com outros, alinhados em coluna. Neste último caso, a separação destina-se a manter o alinhamento.

Na parte decimal dos números, a separação faz-se havendo cinco ou mais algarismos à direita da vírgula, excepto no caso dos números alinhados em coluna:

Exemplos: 1,234; 1,2456; 1,2456 7; 0,000 002 3; 3,141 59; 2145,9876.

O separador decimal é uma vírgula ou um ponto?
Quando se escreve um número não inteiro, utiliza-se um separador para demarcar a parte inteira da parte decimal. De um modo geral, o separador decimal pode ser um ponto ou uma vírgula, de acordo com a língua em que o documento estiver escrito. Em Portugal, na França e em muitos outros países, o separador é uma vírgula; nos países de língua inglesa utiliza-se um ponto. Se a parte inteira for zero, esse zero tem de ser escrito, de modo que haja sempre algum algarismo à esquerda do separador decimal.

Exemplos: 1,234; 0,27 (mas nunca se escreva ,27).

Horas

O momento em que ocorre um acontecimento pode ser indicado simplesmente pela sequência "horas, minutos segundos"(hhmmss), por exemplo, 142538 significa 14 h 25 min 38 s. Este é o chamado formato de base. Também existe o formato alargado (hh:mm:ss), onde os números indicativos são separados por dois pontos, tal como é indicado nos relógios digitais:

Exemplo: «O incidente deu-se às 17:34:25 do dia 23 de Março de 2015».

Nesta formulação, se algum dos elementos indicados for inferior a 10, deve levar um zero à esquerda (por exemplo, 03:34:08). Neste modo de apresentação, o significado de cada conjunto de algarismos está convencionado e não se indicam unidades (cf. Norma ISO 8601). Não havendo interesse na indicação dos segundos pode escrever-se, por exemplo, «o incidente ocorreu às 17:34 do dia23 de Março de 2015». É claro que também se pode utilizar a formulação por extenso, sobretudo na escrita corrente, quando não existir necessidade de exactidão: «O António chegou à igreja às onze horas e trinta minutos».
Também é possível dizer que «o incidente ocorreu às 17 h 34 min 25 s do dia 23 de Março de 2015». Note-se que o símbolo da hora é "h" (e não "H"), o símbolo do minuto é "min" (e não "m"), e o do segundo é "s" (e não "seg"). Diga-se desde já que "H" é o símbolo do henry, unidade de indutância no Sistema Internacional de Unidades, pelo que uma indicação como "10 H" será lida como "dez henrys".
No entanto, a duração de um intervalo de tempo, de um acontecimento, de um espectáculo, etc., nunca deverá ser especificada pela separação dos dois pontos, exigindo a indicação das unidades de tempo correspondentes. Alguns exemplos: «O espectáculo durou 1 h 37 min»; «O esvaziamento do reservatório demorou 1 min 34,4 s». Mas não se grafe que «a reunião demorou 01:45».

Indicação da data numa forma inteiramente numérica

Na linguagem comum, numa carta, numa biografia, podemos sempre dizer «no dia 3 de Abril de 2014», ou «em 03/04/2014». No entanto, em registos compactos, é possível condensar todos estes dados numa forma inteiramente numérica , escrevendo sucessivamente o ano, o mês e o dia. Os elementos (ano, mês, dia) podem ser seguidos, ou, se se preferir, separados por hífenes (cf. Norma Portuguesa NP-950). O significado dos diversos algarismos está convencionado e não se indicam unidades.

A data anterior pode ser escrita na forma 20140403, ou ainda como 2014-04-03.

[O autor não segue o Acordo Ortográfico de 1990].

 

Fontes de informação complementar:

Guilherme de Almeida, O bilião e a nomenclatura dos grandes números: regra “N” e regra “n –1” , Gazeta de Física, Vol. 31 – N.º 1, 2014 (artigo mais avançado).

Guilherme de Almeida, "Afinal, como é e como se escreve um bilião", Sul Informação, Sul Informação, 26/08/2013 (artigo simplificado).

Guilherme de Almeida, Sistema Internacional de Unidades, Lisboa, Plátano Editora, 2002

IPQ (Instituto Português da Qualidade), Norma Portuguesa NP-950, Tratamento da informação – Escrita numérica das datas (1984)

ISO (Organização Internacional de Normalização), Normes ISO 8601, Éléments de données et formats d'échange, Échange d'information – Représentation de la date et de l'heure (Pode ser consultada na biblioteca do IPQ), 1988,2000, 2004*

IPQ, A Metrologia é a ciência da medição e das suas aplicações, desdobrável para impressão

Organisation intergouvernementale de la Convention du Mètre, Le Système international d'unités, 8.ª edição, 2006 (pp. 44-45)

* Sobre esta norma, veja-se artigo da Wikipédia.

Sobre o autor

Guilherme de Almeida (Lisboa, 1950) é licenciado em Física, autor português e professor aposentado. Publicou, entre outras obras, Sistema Internacional de Unidades – Grandezas e Unidades Físicas, Terminologia, Símbolos e Recomendações, livro recomendado pela Sociedade Portuguesa de Física. Tem mais de 100 artigos publicados. Ver mais aqui.