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Unidades maltratadas
Unidades maltratadas

Artigo que Guilherme de Almeida, autor de Sistema Internacional de Unidades – Grandezas e Unidades Físicas, Terminologia, Símbolos e Recomendações, acedeu em escrever para o Ciberdúvidas, sobre os cuidados a ter com as regras de representação das unidades. Trata-se do primeiro de quatro textos –  ler "Sobre os nomes e símbolos das unidades físicas", "Os prefixos SI: uso, escrita e simbologia" e "Sobre a escrita dos números, das horas e de outras representações" – acerca das normas que abrangem a terminologia e os símbolos usados no discurso técnico-científico.

* Sobre a diferença entre símbolos e abreviaturas, bem como a respeito da aplicação do ponto abreviativo, leia-se, nesta mesma rubrica, um artigo de Maria Regina Rocha, "A grafia (diferente) das abreviaturas e dos símbolos".

 

O sistema de unidades legal em Portugal é o Sistema Internacional de Unidades, abreviadamente representado por SI (sigla normalizada sem pontos após cada uma destas letras). A grafia e a simbologia dos nomes da unidades obedecem a regras de representação que convém conhecer e utilizar correctamente.

Pode parecer que estas preocupações estão ao nível do irrelevante. Porém, a forma correcta de escrita de nomes e símbolos de unidades segue um conjunto de regras próprias, tal como acontece com a gramática. Tais regras devem cumprir-se para evitar confusões e para melhor entendimento entre as pessoas. Infringir essas regras é tão grave como na linguagem corrente escrever “asseitar” em vez de aceitar, ou “licho” em vez de lixo. “Percebe-se na mesma”, dizem alguns, mas está errado.

Olhando à nossa volta, deparamos – não poucas vezes – com representações incorrectas, muitas vezes utilizadas com as melhores intenções mas inaceitavelmente erradas. E isso desprestigia de algum modo quem se exprime dessa forma. Vamos ver alguns dos casos mais gritantes e frequentes.

O símbolo do quilograma

No SI, a unidade de massa é o quilograma, cujo símbolo é “kg” (escrito com “k” minúsculo), embora se veja muitas vezes escrito (erradamente) “Kg”, nas mercearias, nos hipermercados, nas notícias dos jornais e dos canais televisivos. Não é nada raro ver o imponente e errado "Kg", com ar majestoso, alcandorado numa tabuleta espetada num cesto de cebolas, ou de batatas, anunciando o preço de cada quilograma do produto.

O grama e a grama

Outra unidade bastante beliscada na linguagem comum é o grama (submúltiplo do quilograma): o nome desta unidade é um substantivo masculino. Porém, ouvimos com frequência o pedido “pese-me duzentas gramas de fiambre, se faz favor”. O mesmo erro também aparece muitas vezes na forma escrita. Por outro lado, “a grama” é um termo usado no Brasil para designar a relva. O símbolo do grama é “g”.

O símbolo do quilómetro

A unidade de comprimento é o metro, que tem variados múltiplos e submúltiplos nem sempre usados da melhor forma. O mais maltratado é sem dúvida o quilómetro, cujo símbolo é “km”, embora muitos jornais e os canais de televisão sejam pródigos em representá-lo por “Km”. Ainda há poucos anos, o próprio Código da Estrada e a sinalização rodoviária cometiam generosamente este erro, mas felizmente já o corrigiram. O prefixo “quilo” tem como símbolo um “k” minúsculo, para que não se confunda com o símbolo do kelvin (unidade de temperatura absoluta), que é “K”.

O símbolo do minuto (de tempo)

Referimo-nos aqui ao minuto de tempo, o dos relógios, mas também há o minuto de ângulo (dito minuto de arco). Persiste o hábito errado de representar o símbolo do minuto como “m”. No entanto, para que conste, escrever “12 m”, só pode ser lido como “doze metros”. Há também quem queira representar os minutos (de tempo) pelo símbolo « ‘ » e os segundos por « “ », mas estes símbolos têm outra função: referem-se, respectivamente, ao minuto de arco e ao segundo de arco, utilizados na medição de ângulos, sendo 1º = 60’ = 3600”. Este erro aparece principalmente em dois tipos de utilizadores: no mundo do desporto e no mundo da música. Nos desportos e nos jornais desportivos, escrevem que um atleta completou a prova em 3’ 20“, quando deveriam escrever 3 min 20 s. Na música, não é raro vermos escrito que a canção “X” tem a duração de 2’ 38”, quando deveriam grafar 2 min 38 s.

Os graus centígrados

A temperatura Celsius é correntemente utilizada nos órgãos de comunicação social, sobretudo para nos dizerem se vai estar bom tempo ou se precisamos de nos agasalhar mais. Mas não é correcto dizer “prevê-se a temperatura máxima de dezoito graus centígrados”, pois na terminologia correcta são dezoito graus Celsius (18 ºC). E 18 ºC também não se devem escrever numericamente como 18 º C, pois os símbolos “ º ” e “C” formam um símbolo único e devem ficar sempre juntos um do outro.

[O autor não segue o Acordo Ortográfico de 1990.]

 

Fontes de informação complementar:

Guilherme de Almeida., "Como utilizar corretamente símbolos e nomes de unidades", Sul Informação, 11/09/2013

Guilherme de Almeida, "Afinal, como é e como se escreve um bilião", Sul Informação, 23/08/2013

Guilherme de Almeida, Sistema Internacional de Unidades, Lisboa, Plátano Editora, 2002

Le Système international d'unités, 8.ª edição, Organisation intergouvernementale de la Convention du Mètre, 2006

Decreto-Lei n.° 427/83, de 7 de Dezembro

Decreto-Lei n.º 238/94, de 19 de Setembro – Sistema de Unidades de Medida Legais para todo o território português

Declaração de rectificação n.º 2/95, de 31 de Janeiro – Rectificação de inexactidões do Decreto-Lei nº 238/94

Decreto-Lei n.º 254/2002, de 22 de Novembro – Alterações ao Decreto-Lei n.º 238/94

Declaração de Rectificação n.º 1-G/2003, de 31 de Janeiro – Rectificação de inexactidões do Decreto-Lei n.º 254/2002

Decreto-Lei n.º 128/2010, de 3 de Dezembro

Sobre o autor

Guilherme de Almeida (Lisboa, 1950) é licenciado em Física, autor português e professor aposentado. Publicou, entre outras obras, Sistema Internacional de Unidades – Grandezas e Unidades Físicas, Terminologia, Símbolos e Recomendações, livro recomendado pela Sociedade Portuguesa de Física. Tem mais de 100 artigos publicados. Ver mais aqui.