Provérbios pelo São João, a grafia de «príncipe consorte» e a confusão recorrente no uso de bilião - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Provérbios pelo São João, a grafia de «príncipe consorte» e a confusão recorrente no uso de bilião
Provérbios pelo São João, a grafia de «príncipe consorte»
e a confusão recorrente no uso de bilião
Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa 282

1. Em vários pontos do mundo de língua portuguesa, de tradição cristã, dedica-se este dia a S. João Batista, o segundo dos santos que se comemoram no mês de junho (como se sabe, os outros são S. António e S. Pedro).  As festas de S. João, cujo sentido é tão religioso como profano e popular, coincidem, portanto, com o solstício – de verão no hemisfério norte – e não é de surpreender que, em Portugal, muitos provérbios alusivos à quadra se relacionem com os ciclos agrícolas: diz-se ainda hoje que «pelo São João, lavra e terás palha e pão», «pelo São João apanham-se à mão» ou «no mês de São João, para estar bem, há de cobrir o milho o rabo ao chão»; e, naturalmente, a relação do tempo que faz com o andamento das colheitas é tema obrigatório: «nevoeiro de São João estraga o vinho e não dá pão», ou «chuva de São João, tira vinho, azeite e não dá pão» (que já foi comentada aqui). Como sempre, nos arraiais, muitos procuram saciar apetites, atavicamente confiados em que «pelo São João, pinga a sardinha no pão», apesar da escassez cada vez maior deste peixe. Seja como for, se em Portugal há arquétipo do São João, encontra-se ele com certeza na tradição festiva da cidade do Porto e arredores, conforme se pode confirmar por um trabalho que o jornalista Márcio Magalhães assina no magazine digital NCultura em 23/06/2019.

Na imagem, São João Batista, painel de azulejos de autor desconhecido (Lisboa, 1650 – 1660). Fonte: MatrizNet.

2. Apesar dos folguedos são-joaninos, conseguimos alguma concentração para as perguntas do Consultório: como se explica que a letra de uma canção fuja à gramática convencional? A frase «já não me apetece» é equivalente a «não me apetece mais», ou não? Estará anti-hipertensor tão correto como anti-hipertensivo? E porque é que «príncipe consorte» se escreve sem hífen?

3. Entretanto, pensando na qualidade do português que se vai mediaticamente escrevendo, cabe aqui fazer referência a um apontamento em linha em 24/06/2019, no portal do Clube dos Jornalistas. O tema é o da confusão recorrente entre mil milhões e bilião, a qual fez com que uma despesa de 15 mil milhões de kwanzas – a que o ministério da Saúde de Angola tem com a hemodiálise – fosse transformada na astronómica soma de 15 biliões de kwanzas, que é a erradamente mencionada na notícia que circulou em Portugal (ver também no Pelourinho).

4. Ainda a propósito das diferentes reações às palavras do jornalista João Miguel Tavares a favor de maior ação política para prestigiar o crioulo de Cabo Verde, a rubrica Diversidades transcreve a crónica que o professor universitário e tradutor Marco Neves publicou em 23/06/2019 no portal SAPO 24 a respeito da génese do cabo-verdiano (texto também disponível em Certas Palavras, blogue deste autor).

5. A questão do cabo-verdiano envolve a do seu ensino e motiva outros países da CPLP a discutir o estatuto das línguas nacionais nas comunidades que usam o português como língua segunda. Ao encontro destas preocupações vêm, portanto, as recentes considerações de Incanha Intumbo, secretário executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, que no IX Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, realizado entre 20 e 22/06/2019 na cidade da Praia (Cabo Verde), defendeu uma metodologia diferente no ensino da língua portuguesa nos países africanos, visto que «ensinamos o português nos nossos países como se fosse língua materna, quando não é» (declarações reproduzidas pela agência Lusa e publicadas pelo Diário de Notícias de 21/06/2019). Segundo Incanha Intumbo, um dos problemas do ensino nesses Estados é «terem "línguas africanas muito vivas", a que os estudantes estão habituados desde crianças, mas, de repente, têm de fazer uma transição para uma língua de índole europeia» (idem, ibidem).

6. Chegadas da Galiza, merecem também registo as declarações de Luís Faro Ramos, presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua I. P., que, à margem de um encontro havido em 19/06/2019, em Santiago de Compostela, entre o instituto português e a Real Academia Galega, sublinhou que, apesar de próximos, o português e o galego não são a mesma língua (La Voz de Galicia, 21/06/2019). Assinale-se que, ainda no âmbito desta visita, o Camões I. P. e o Conselho da Cultura Galega criaram o Foro Inês de Castro, com vista a programar uma série de seminários, jornadas e conferências à volta de temáticas comuns a Portugal e à Galiza (mais informação aqui).

7. Registo ainda dos seguintes eventos e iniciativas no mundo académico:

– o lançamento de O Legado de Leite de Vasconcelos na Universidade, uma obra de Ivo Castro, professor emérito da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), em 26/06/2019, pelas 17h00 na biblioteca da FLUL;  

– entre os cursos de verão que as universidades portuguesas organizam entre julho e setembro, refira-se o curso "Boas práticas de tecnologia para tradução", que conta com o tradutor Marco Neves na sua equipa docente e decorre em julho na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (mais informação aqui);

– a criação, a partir de setembro de 2019, do Instituto Politécnico da Lusofonia (Ipluso), entidade do Grupo Lusófona que nasce da fusão de duas escolas, a ERISA – Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches, e o ISCAD – Instituto Superior de Ciências da Administração.