«Já não» e «não... mais» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
«Já não» e «não... mais»

Gostaria de saber quando usar de e mais, por exemplo, «já não tenho ganas de o fazer», «não tenho mais ganas de o fazer».

Júlio Moreira refere que é erro usar de mais em lugar de . Mas a que situações é que esse uso se aplica? Em que casos é que se emprega «já não» e «não mais»? Lendo José Luís Peixoto, tenho vindo a observar a presença de já não, embora noutras passagens ele se valha de não mais. Quando é que se deve usar «não mais» e quando «já não» de acordo com a norma culta portuguesa?

Reconhecido imensamente ao vosso trabalho.

José de Vasconcelos Saraiva Estudante de Medicina Foz do Iguaçu, Brasil 42

Com efeito, algumas abordagens da língua consideram a construção «não mais», usada com valor temporal, um galicismo, defendendo ser preferível a opção por «já não».

Todavia, atualmente, as expressões, quando têm um valor temporal, são quase sinónimas e estão ambas corretas. A diferença entre elas tem lugar no plano aspetual, pois o advérbio é usado quando o locutor pretende transmitir uma expectativa relativamente a algo que esperava que viesse a acontecer1:

(1) «O Pedro já começou a falar.»

Neste caso, o uso do advérbio evidencia que o locutor tinha a expectativa de que o Pedro falasse.

Quando se afirma, como na frase apresentada pelo consulente:

(2) «Já não tenho ganas de o fazer.»

sinaliza-se que havia a expectativa de que uma dada situação tivesse lugar, o que não vai acontecer.

A frase (3), por seu turno, sinaliza a suspensão de uma situação:

(3) «Não tenho mais ganas de o fazer.»

O advérbio mais, embora expresse um valor temporal, tem também um valor quantitativo, que, neste caso, se nega. Este é um aspeto de detalhe que distingue a construção (3) da construção (2).

Evanildo Bechara, tratando as construções «já não» e «não mais», refere a seguinte distinção entre as variantes de português do Brasil e de português europeu:

«No Brasil, é mais geral o emprego de não mais em ambos os valores semânticos; em Portugal, como ensina Gladstone Chaves de Melo, já não é mais comummente usado “quando o que se focaliza é um trânsito de passado para presente”, enquanto não mais se usa quando se quer “significar o futuro em relação ao tempo indicado pelo verbo” [GM.1, 111].» (Moderna Gramática Portuguesa. Editora Nova Fronteira e Editora Lucerna, p. 364, destaques nossos)

Em nome do Ciberdúvidas, agradeço as gentis palavras que nos endereça! 

1. Para maior desenvolvimento, cf. Raposo et al., Gramática do Português, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 1652.

Carla Marques
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: advérbio
Áreas Linguísticas: Semântica; Sintaxe Campos Linguísticos: Negação