Análise da frase «é tão cedo ainda e tão tarde o que sei» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Análise da frase «é tão cedo ainda e tão tarde o que sei»

Tenho uma dúvida sobre esta frase, a qual julgo que está mal construída. Não sei o que quer dizer: «É tão cedo ainda e já tão tarde o que sei.»

Aparece na canção "No dia seguinte", interpretada por Paulo Brissos (Festival RTP da Canção 1993), com letra de Nuno Gomes dos Santos e música de Jan Van Dijck.

Contexto: «Era tão certo o amor que eu inventei/Estava tão perto e, mesmo assim, não sei/Se fui eu que bebi demais, se fui eu que entornei/Este copo de água da sede que não matei/Se fui eu que bebi demais, se fui eu que entornei/Este copo de água da sede que não matei/É tão cedo ainda e já tão tarde o que sei.»

Obrigado.

Carlos Martínez Sánchez Tradutor e intérprete Múrcia, Espanha 42

Se considerarmos que o verso apresentado não tem elementos elididos, poderemos propor a seguinte análise sintática dos seus constituintes:

«o que sei» - sujeito

«cedo e tão tarde» - predicativo do sujeito (composto por dois constituintes coordenados)

«ainda» e «já» - modificadores

Nas orações copulativas, quando o predicativo do sujeito é um advérbio temporal, este impõe restrições sobre o sujeito. Como refere Raposo, «um predicador temporal pode ocorrer com sujeitos que denotam uma situação (cf. [O concerto foi tarde/cedo/ontem/antes/ de manhã]), mas não com sujeitos que denotam entidades concretas (cf. a impossibilidade de *o Pedro foi/está tarde / ontem, *a pedra foi/está cedo / de manhã)» (Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, p. 1596).

Assim, se considerarmos que a oração relativa «o que sei» não corresponde a uma situação com temporalidade intrínseca, o verso apresenta, com efeito, uma anomalia semântica.

Todavia, não podemos esquecer que estamos no campo da construção poética, que se caracteriza também por explorar sentidos que nascem de associações que a norma não prevê nem aceita. Nesta ótica, o verso em questão constitui um desafio à interpretação e, por isso mesmo, enriquece o poema, introduzindo-lhe densidade.

Finalmente, não poderemos desprezar a possibilidade de no verso terem sido elididos constituintes (por uma questão de ritmo, métrica). Nesta ótica, poderíamos considerar que o verso completo poderia corresponder a:

(1) «É tão cedo ainda e já tão tarde para o que sei»

Neste caso, estaríamos perante uma estrutura correta do ponto de vista semântico e sintático.

Carla Marques
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: advérbio
Áreas Linguísticas: Discurso/Texto; Sintaxe Campos Linguísticos: Coesão/Coerência; Orações