1. Nos noticiários e nos programas televisivos de Portugal, a atualidade internacional leva a reativar nomes comuns e próprios que andavam esquecidos, sem projeção mediática. Outras vezes, põe em circulação neologismos, por empréstimo ou de formação potencial, à espera da primeira oportunidade para se fazerem ler e ouvir. O primeiro caso é ilustrado pelas notícias sobre as eleições federais na Alemanha em 23/02/2025, que deu a vitória aos partidos da CDU/CSU* mas confirmou a AfD*, como segunda força política – e até primeira em estados como o estado da Turíngia. Sobre o nome Turíngia, convém dizer que, apesar de este corónimo (nome de região) se dever a uma antiga etnia germânica, os Turingos (ou Turíngios), a pronúncia correta deste estado alemão é "turínjia", com o som "j" de Japão, e nunca "Turínguia"; e note-se que o atual gentílico dos naturais ou habitantes da região é turíngios. Falou-se também do estado da Baviera, por vezes mencionada como Bavária, o que não está errado, pois, na verdade, é esta uma forma vernácula, entretanto suplantada por Baviera, que o francês motivou mas que se utiliza hoje sem erro (ver Vocabulário da Língua Portuguesa, 1966, de Rebelo Gonçalves). Quanto a neologismos, regista-se trumposfera (NOW, 26/01/2025*), aportuguesamento do inglês Trumposphere, termo referente ao meio envolvente, político, financeiro e mediático, do atual presidente dos EUA, Donald Trump. A palavra inglesa, que terá sido cunhada há alguns anos, no período do primeiro mandato de Trump, tem sido adaptada por outros idiomas (p. ex., o francês trumposphere), nos quais, incluindo o português, já era produtivo um elemento morfológico com origem no latim sphaera, «bola», e recorrente na linguagem científica (atmosfera, biosfera, estratosfera, troposfera – cf. Dicionário Houaiss). E, como acontece noutras línguas, o morfema -sfera tem permitido criar novas palavras, com alguma intenção crítica e maior ou menor fortuna no uso: blogosfera, anglosfera, machosfera, androsfera, infosfera, entre outras.
* CDU é a sigla alemã da Christlich Demokratische Union Deutschlands («União Democrata-Cristã da Alemanha») e CSU, de Christlich-Soziale Union in Bayern («União Democrata-Cristã da Baviera»). AfD é a sigla de Alternative für Deutschland («Alternativa para a Alemanha»). Na imagem, atuação de músicos nos festejos do Carnaval de Colónia, na Alemanha (fonte: Wikipédia, 2006).
** Junta-se o registo deste uso de trumposfera (ao contrário do inglês não se mantém a maiúscula do nome próprio que é base da derivação deste termo):
2. Noutro canal de televisão português, trocou-se erroneamente preciosismo por preciosidade, confusão que dá o mote para um apontamento do consultor Paulo J. S. Barata, recordando, na rubrica Pelourinho, que o preciosismo se caracteriza «pela afetação e requinte no falar e no escrever, à maneira do que era uso, em França, no século XVII».
3. Nos projetos em vídeo do Ciberdúvidas, dois tópicos são tratados: em Ciberdúvidas Vai às Escolas (episódio 19), refere-se a neutralização da distinção entre os fonemas /b/ e /v/, a chamada troca dos vês pelos bês (betacismo), típica do português da metade setentrional de Portugal (agradece-se a participação do Agrupamento de Escolas de Alfornelos, no concelho da Amadora); e, em Ciberdúvidas Responde (episódio 24), a consultora Edite Prada dá indicações sobre o uso correto da construção impessoal «trata-se».
4. Os estudos de onomástica e, no seu âmbito, os de toponímia definem uma área da linguística com uma forte componente extralinguística, que lança mão de muitos dados da história e da geografia, para não falar de outros domínios. No Consultório, comenta-se a origem de três topónimos do norte de Portugal, dois no concelho de Paços de Ferreira (Caçães e Cô) e outro, Perafita, que é recorrente em diferentes concelhos. A atualização inclui ainda questões sobre o uso do pronome lhe e a sintaxe de três verbos: raiar («essas atitudes raiam o excesso»), submeter («... submetendo-os a uma regra») e passar («queria passar a tarde a ver filmes»).
5. Tradicionalmente, celebra-se por estes dias o Carnaval, a que se segue o período da Quaresma. Em O Nosso Idioma, a consultora Inês Gama propõe uma reflexão sobre o campo lexical da palavra Carnaval e outras tantas que gravitam em seu torno.
6. Entre conteúdos publicados nos media, com incidência no ensino da língua portuguesa, materna e não materna, relevo para "A leitura e a escrita precisam de mais espaço nas aulas de Português", um trabalho da jornalista Cristiana Faria Moreira (Público, 26/02/2025) e "Alunos de Língua Portuguesa Não Materna: Entre dois mundos, entre duas línguas", da professora Carmo Machado (Visão, 21/02/2025).
7. Referência a dois dos programas que, na rádio pública de Portugal, são dedicados a temas da língua portuguesa.
– Para falar sobre o projeto que a Escola Superior de Educação de Coimbra desenvolve em Cabo Verde para promoção da leitura, entrevista-se Sofia Gonçalves, em Língua de Todos (RDP África, sexta-feira, 28/02/2025, às 13h20*; repetido no dia seguinte, c. 09h05*).
– Em Páginas de Português (Antena 2, domingo, 02/03/2025, às 12h30*; repetido no sábado seguinte, 08/03/2025, às 15h30*), a investigadora Andressa Jove Godoy apresenta o seu estudo sobre como era Fernando Pessoa ensinado e retratado nos manuais escolares durante o Estado Novo. Ainda o apontamento gramatical da professora Carla Marques, esta semana sobre verbos relacionados com a palavra Carnaval.
* Hora oficial de Portugal continental.
8. Como em 4 de março de 2025 se festeja o Carnaval, não haverá atualização destas páginas nesse dia. Contudo, a atividade habitual é retomada logo depois, na sexta-feira, 7 de março. Entretanto, ficam três provérbios alusivos a esta época do ano, também designada pelo vocábulo Entrudo, de tradição mais rural: «Entrudo bolorento, Páscoa com bom tempo», «Entrudo papa tudo» e «Não há Entrudo sem Lua Nova, nem Páscoa sem Lua Cheia» (retirados do Livro dos Provérbios Portugueses, de José Ricardo Marques da Costa).