Edite Prada - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Edite Prada
Edite Prada
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Edite Prada é consultora do Ciberdúvidas. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Português/Francês, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; mestrado interdisciplinar em Estudos Portugueses, defendido na Universidade Aberta de Lisboa. Autora de A Produção do Contraste no Português Europeu.

 
Textos publicados pela autora

Há um conjunto de verbos que podem designar-se como verbos de transferência em que a ação designada pelo verbo se projeta, ou é transferida, no complemento indireto (CI), que, do ponto de vista semântico, assume o papel temático de alvo, meta, ou destino.

No caso do verbo responder há uma entidade agente (o sujeito) que responde, e há uma entidade, normalmente com o traço mais humano, que recebe a resposta. Essa entidade desempenha a função sintática de CI a que se atribui facilmente o papel temático de destino.

O que acaba de se expor explicita-se numa frase como 1:

1. «Ele respondeu com convicção à Maria.»

A entidade com função de CI em 1 é facilmente substituída pelo pronome:

1.1. «Ele respondeu-lhe com convicção.»

Curiosamente, a par desta construção, que poderemos considerar prototípica, o verbo responder assume outro tipo de construções em que à função sintática de complemento indireto não é atribuído o papel temático de destino. É o caso da frase em apreço que repetimos como 2:

2. «Ele respondeu com convicção a todas as questões.»

Note-se que, neste exemplo, o CI dificilmente pode ser substituído pelo pronome (os ??? indicam aceitabilidade reduzida ou nula):

2.1. ???«Ele respondeu-lhes com convicção.»

O referente de lhes em 2.1 parece ser não «a todas as questões», mas, sim, a pessoa, ou pessoas, que terá formulado essas questões. E, nesta interpretação, a expressão «a todas as questões» assume um papel temático mais próximo do tema, associável em muitos casos ao complemento direto.

A resposta não é direta. A construção pressupõe «três dos alunos», que tem valor partitivo. Sendo assim, «dos alunos» é complemento nominal. Consequentemente, numa oração relativa, «dos quais», que inclui o pronome relativo «o qual», cujo antecedente é «cinco alunos», também é complemento nominal na frase em questão.

Desenvolvendo um pouco a análise de «dos quais», trata-se de um complemento: o núcleo de «três dos quais» é «três» – com valor nominal; e «dos quais» restringe o universo a que se refere a informação veiculada pela oração em que se insere – «três – dos quais (alunos)/deles – já desistiram…»

Um exemplo semelhante é registado por Maria Helena Moura Neves, na Gramática de Usos do Português (São Paulo, Editora UNESP, 2003, p. 587):

«Das seis crianças que foram receber a merenda, somente três estudam na escola.»

Nesta frase, a autora considera que «três» é adjunto adnominal, subentendendo-se «três crianças». Porém, tanto aqui como no exemplo em análise, «três» é o núcleo, e «dos quais», o complemento com valor partitivo, ou se quisermos, restritivo. Em qualquer dos casos, é uma situação em que o numeral desempenha a função nuclear dentro do sujeito, assumindo um valor "nominal" (por elipse do nome). Sendo assim, a análise sintática da expressão encaixada «dos quais» tem de ser feita a partir deste pressuposto.

Refira-se que, tanto em Portugal como no Brasil, se pode considerar «dos quais» um complemento, sobretudo se tivermos em conta o que acerca do complemento nominal diz Evanildo Bechara, na sua Moderna Gramática Portuguesa (Rio de Janeir...

Para interpretar os complementos que completam os verbos de movimento, é, muitas vezes, necessário recorrer aos papéis temáticos que lhes são característicos. Num verbo de movimento, temos, literalmente, a deslocação de uma entidade de um local (origem) para outro (meta ou destino).

Estas são, a meu ver, as duas possibilidades de termos complementos oblíquos, a que se associa o papel temático de origem ou de destino.

Nos restantes casos estamos perante informação suplementar, a que se associa a função sintática de modificador. O que dificulta a interpretação em «Vim pelo caminho com o meu avô» é o facto de «pelo caminho» designar, também, espaço… Mas esse é um dos três valores típicos dos modificadores verbais indicados no Dicionário Terminológico: espaço, tempo e modo.

Em síntese, a meu ver, «pelo caminho» é um modificador.

O facto de poder substituir o complemento pelo pronome pessoal lhe permite a interpretação dos complementos em questão como indiretos. Não se trata, todavia, de complementos indiretos prototípicos, pois não representam entidades humanas, nem animadas. Esta característica é apontada na Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, 2013, pág. 1175), para os verbos desobedecer, obedecer, resistir e sobreviver.

No Dicionário Gramatical de Verbos Portugueses (Lisboa, Texto Editores, 2007), andar surge como verbo principal, podendo ser transitivo direto («Ele andou 100 metros») ou transitivo indireto, com complemento oblíquo: «Ele anda a cavalo»; «A Terra anda à volta do Sol»; «Eles andam na apanha da azeitona.» Enquanto copulativo, o verbo, se for seguido das preposições com ou em, ou de adjetivo, é apresentado no mesmo dicionário como tendo valor próximo de estar: «Vê-se mesmo que andas com saudades da família»; «A casa anda em obras.» Também lhe é associado, enquanto copulativo, o valor próximo de usar, se as preposições subsequentes forem com ou de: «Os estagiários andam sempre com calças de fazenda»; «A sogra não gosta de andar de saltos altos.»

O caso apresentado não tem, como bem sugere a consulente, uma análise inequívoca. Há três possibilidades de análise:

a) considerar «andar às voltas» como um todo, porque é uma expressão idiomática;

b) partir do princípio de que andar é um verbo transitivo indireto, sendo «às voltas» um complemento oblíquo; com esta interpretação a expressão pode ter um sentido literal: «Andei meia hora às voltas antes de estacionar o carro»;

c) ou, aceitando que «anda às voltas» é equivalente a «anda perdida» ou «está à procura de alguma coisa», diremos que «às voltas» é um predicativo.

Sobre esta última análise, observe-se que o verbo andar, enquanto copulativo, é apresentado na Gramática do Português, da Fundação Calouste Gulbenkian, como veiculando informação relativa a um estado episódico (pp. 1305 e 1312), o que, creio, acontece na expressão «andar às voltas»,...