Dialetos brasileiros - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Dialetos brasileiros

Gostaria de saber se existe algum livro ou artigo que façam uma classificação coerente e consensual dos dialetos e falares regionais brasileiros, explicitando as características de cada um. Tudo o que encontrei sobre este tema foram blogues ou outro género de publicações pouco científicas. Alguns chegam a falar de 10 dialetos e, inclusive, mais. Poder-me-iam esclarecer um pouco sobre este tema e recomendar alguma obra, por favor? Além disso, gostaria de saber qual é a diferença entre falar e dialeto. Entendo que o primeiro conceito se refere a uma variedade geográfica da língua, mas não entendo o conceito de “falar(es)”.

Muito obrigada pelos esclarecimentos.

Raquel Santos Estudante Porto, Portugal 721

Comecemos por recorrer à Nova Gramática do Português Contemporâneo¹ que, na página 4, esclarece:

«As formas características que a língua assume regionalmente denominam-se dialectos.

Alguns linguistas, porém, distinguem, entre as variedades diatópicas² o falar do dialecto.

Dialecto seria 'um sistema de sinais desgarrado de uma língua comum, viva ou desaparecida; normalmente, com uma concreta delimitação geográfica, mas sem uma forte diferenciação diante dos outros da mesma origem'. De modo secundário, poder-se-iam também chamar dialectos 'as estruturas linguísticas, simultâneas de outra, que não alcançam a categoria de língua'.

Falar seria a peculiaridade expressiva própria e uma região e que não apresenta o grau de coerência alcançado pelo dialecto. Caracterizar-se-ia, do ponto de vista diacrónico, segundo Manuel Alvar, por ser um dialecto empobrecido, que, tendo abandonado a língua escrita, convive apenas com as manifestações orais. [...]»³

No que respeita aos dialetos brasileiros, há uma insuficiência de informação rigorosa sobre as diferenças das variedades regionais que tem a ver com o extensíssimo território do país. Para Cunha e Cintra, os atlas dos Estados da Bahia e de Minas Gerais [e o Atlas Linguístico de Sergipe, coordenado pelo professor Nelson Rossi], são contributos importantes para o estudo do assunto. O projeto do Atlas Lingüístico do Brasil, que recentemente publicou os dois primeiros volumes, é mais um passo para o conhecimento das variedades regionais existentes no país.

De acordo com  Antenor Nascentes, é possível dividir o Brasil em duas grandes regiões dialetais – norte e sul.

«Em cada grupo, distingue Antenor Nascentes diversas variedades a que chama subfalares. E enumera dois no grupo Norte: a) o amazónico, b) o nordestino. E quatro no grupo Sul: a) o baiano, b) o fluminense, c) o mineiro, d) o sulista.»¹ 

 A proposta de Nascentes desta grande divisão linguística no Brasil toma como base «a cadência da fala: fala 'cantada' no Norte, fala 'descansada' no Sul» e a existência de vogais pretónicas nos dialectos do Norte em vocábulos que não sejam diminutivos nem advérbios em -mente: pègar por pegar»¹. Afirma que “Basta uma singela frase ou uma simples palavra para caracterizar as pessoas pertencentes a cada um destes grupos” (in O linguajar carioca, p. 25). 

Para alargamento do assunto, aconselhamos a consulta das seguintes obras:

O linguajar carioca, Antenor Nascentes, Rio de Janeiro, Organização Simões, 1953; O dialeto brasileiro, Ciro T. de Pádua, editora Guaíra Limitada, Curitiba, S. Paulo, 1942; Dicionário da Terra e da Gente do Brasil, Bernardino José de Sousa, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1961; Tesouro da Fraseologia Brasileira, Antenor Nascentes, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1986; Bases para a elaboração do atlas lingüístico do Brasil, Antenor Nascentes, Rio de Janeiro: MEC, 1961; Atlas Linguístico de Sergipe, coordenado por Nelson Rossi.

Recomenda-se ainda a indispensável consulta do Projeto Atlas Linguístico do Brasil (Projeto ALiB)

 

 N.E. – Nas citações da Nova Gramática do Português Contemporâneo, Celso Cunha e Lindley Cintra, manteve-se a grafia de antes do AO90 

¹ in Nova Gramática do Português Contemporâneo, Celso Cunha e Lindley Cintra, p. 4, edições Sá da Costa, Lisboa, 1ª ed., 1984

² as variações diatópicas são as diferenças no espaço geográfico (falares locais, variantes regionais e, até, intercontinentais)

³ Manuel Alvar, Hacia los conceptos de lengua, dialecto y hablas, Nueva Revista de Filología Hispánica, 15: 57, 1961

Maria Eugénia Alves