As origens da troca do [v] pelo [b] - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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As origens da troca do [v] pelo [b]

A respeito da consulta sobre o fenómeno da chamada troca do /v/ pelo /b/, gostaria de contribuir outro ponto de vista.

A consideração deste fenómeno fonético como "dialectal" vem do facto de isto acontecer actualmente apenas na região norte de Portugal e nos dialectos galegos; no entanto, na maior parte do país e, portanto, no português padrão actual, não acontece. Isto leva à consideração de que são os nortenhos os que «falam esquisito» e se afastam da norma. Mas isto é o mesmo que dizer que a situação "original" do português foi a diferenciação dos fonemas /v/ e /b/. Não obstante, a língua portuguesa tem a sua origem exactamente no território onde actualmente esta diferenciação não existe (Galiza e Norte de Portugal) e talvez nunca existisse. A troca destes sons tem origem no latim vulgar, no qual se produz uma confusão dos fonemas [β], que é um alófono fricativo bilabial de [b] quando intervocálica, e [w], fonema semiconsoante que era escrito <v> ou <u> e pronunciado como o <w> do inglês. Este fenómeno é conhecido como betacismo. A ideia mais estendida é que, perante esta confusão, as línguas românicas tiveram soluções diferentes, uma das quais é a criação duma fricativa labiodental, /v/. Nas línguas galo-românicas ou itálicas parece que foi assim, e às vezes alguns consideram que também aconteceu isto no "português meridional", mas não nos dialectos do Norte.

Acho totalmente errado dizer que isto é influência do espanhol. Mas o caso do português tem de ser necessariamente diferente do do galo-românico, porque esse "português meridional" não é mais do que a evolução duma língua que já se tinha formado no Norte e que ainda hoje não tem o fonema labiodental /v/ (dialectos galegos e dialectos portugueses setentrionais). Portanto, a aparição do fonema /v/ em português parece mais um fenómeno tardio acontecido já dentro da língua portuguesa do que uma evolução directa da situação do latim vulgar, como poderia ter acontecido nas línguas galo-românicas ou itálicas. Portanto, poderia ter acontecido que o verdadeiramente dialectal na origem da língua portuguesa fosse a pronúncia fricativa do /v/, embora se tenha estendido depois desde os dialectos centro-meridionais portugueses, conformando finalmente uma característica do português padrão ou standard. Ninguém possui toda a verdade.

Obrigado.

Alberto Mininho Castinheira Professor Zamora (Espanha), Espanha 3K

Muito se agradecem observações do consulente, as quais suscitam um breve comentário.

É possível que o [v] seja, foneticamente, uma inovação do português centro-meridional, mas, do ponto de vista fonológico, tem-se considerado que este [v] seria variante da fricativa bilabial [β] (também notada [b], como se verá mais adiante], que parece ainda ocorrer hoje como variante [alofone] de /b/ mesmo em certos falares meridionais (em posição intervocálica, por exemplo, no falar lisboeta, quando se pronuncia acabar). O segmento [v], labiodental, teria prevalecido sobre [β], ao mesmo tempo que permitia manter um contraste fonológico talvez mais antigo mais bem ténue, pois opunha, no sistema dialetal galego-português, duas unidades com o mesmo ponto de articulação, uma oclusiva bilabial e uma fricativa (ou constritiva) bilabial. A neutralização destas duas unidades, que convergiram num único fonema, seria uma inovação dos sistemas dialetais românicos da metade norte da Península Ibérica. Os dialetos portugueses setentrionais seguiram, portanto, o galego, o leonês ou o castelhano, ao neutralizar esse contraste fonológico. Os falares centro-meridionais mantiveram o contraste, mas vincando-o mais, ao substituir o ponto de articulação da fricativa (ou constritiva), que teria deixado de ser bilabial para passar a labiodental.

Próximo desta perspetiva parece ser o ponto de vista da linguista brasileira Rosa Virgínia Mattos e Silva (O Português Arcaico. Uma Aproximação, vol. II, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008, pág. 549; manteve-se a ortografia do original):

«[...] [N]a fase galego-portuguesa, ou seja, na primeira fase do português arcaico, no Noroeste peninsular, haveria uma oposição entre bilabial oclusiva e bilabial constritiva (/b/: /b/, que convivia com os dialectos portugueses do Sul, em que se faria a oposição bilabial oclusiva e constritiva labiodental (/b/ : /v/). Na segunda fase, a oposição /b/ : /v/ teria desaparecido nos dialectos setentrionais, neutralizando, portanto, os resultados históricos do /b/ e do /v/ que se mantêm nos dialectos centro-meridionais, pelo reforço do substrato moçárabe. Esta última situação configura o dialecto padrão português, pelo menos desde o século XVI, e marca até hoje como regional e estigmatizada a neutralização já realizada desde o período arcaico nos dialectos do Norte

Em outras palavras: no período arcaico haveria duas áreas dialectais, a setentrional, em que uma mudança em curso levou à fusão dos fonemas históricos /b/ e /v/, e a meridional, em que a oposição /b/ e /v/ se manteve e fez recuar a mudança nortenha, já que o dialecto padrão prestigiado, estabelecido nessa área, impediu a difusão da mudança que vinha do Norte.»

Carlos Rocha
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