Arcaísmos do português de Pernambuco - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Arcaísmos do português de Pernambuco

Aqui na região onde vivo, Pernambuco, é muito comum as pessoas, principalmente do interior do Estado, pronunciarem as palavras vassoura, varrer, travesseiro, vestido, alavanca, etc. trocando-se a letra v pelo b. É notório também uso de arcaísmos como ''treição'' (traição), ''baladeira'' (estilingue), ''fruita'' [fruta], ''luita'' (luta), etc. É triste, pois muitas dessas pessoas, que são doutra geração, são tidas como ''arcaicas'' e sofrem algum preconceito.

Minha pergunta é a seguinte: em Portugal é corriqueira tal mudança na pronúncia ou uso de arcaísmos por parte da população? Sei que os daqui não têm esse sotaque à toa, creio que há uma raiz no outro lado do Atlântico.

Grato!

Manuel José da Silva Estudante Petrolina, Brasil 42

Os casos mencionados na pergunta encontram todos paralelo nos arcaísmos das grandes áreas dialetais de Portugal, em especial, nos chamados dialetos setentrionais portugueses. Trata-se de traços fonéticos e usos conhecidos e tolerados, mas alheios à norma-padrão, cuja constituição se deve em grande parte ao falar das chamadas classes cultas do eixo Lisboa-Coimbra (hoje, considera-se que o contributo lisboeta predomina). Assim:

– A realização da consoante grafada v como o som representado por b é típica do terço norte de Portugal.

– Treição, não sendo a forma padrão, encontra-se hoje esporadicamente nos dialetos portugueses, de norte a sul.

– Já baladeira (= estilingue, isto é, fisga em Portugal), no entanto, não parece ser típica dos dialetos portugueses.

– O ditongo ui em palavras como luita e fruita, variantes de luta e fruta, respetivamente, conserva-se sobretudo nos dialetos setentrionais.

Carlos Rocha
Tema: História da língua Classe de Palavras: substantivo