A conversão do pronome eu e a atribuição de género gramatical - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A conversão do pronome eu e a atribuição de género gramatical

Nos estudos de gramática, notei que, para substantivar (ou nominalizar) palavras como verbos ou advérbios, amiúde se lhes antepõem artigos masculinos (por exemplo, «um não» ou «o jantar»).

A dúvida que vos apresento, no entanto, refere-se ao pronome pessoal do caso reto eu: se substantivado, o pronome será invariavelmente «o eu», ou, em caso de um sujeito feminino, também poderá ocorrer uma forma feminina («a eu»)? Se, por exemplo, uma personagem feminina desejasse escrever uma carta destinada a ela mesma, mas num tempo futuro, poderia, segundo as normas da língua, começá-la com a frase «Escrevo esta carta à eu do futuro»? Ou seria mais adequado «Escrevo esta carta ao eu do futuro», tal como no caso de uma personagem masculina?

Meus sinceros agradecimentos e felicitações pelo excelente trabalho do Ciberdúvidas!

Gustavo Lino Estudante São Paulo, Brasil 658

Um dos processos tradicionalmente incluídos na formação de palavras é a conversão (também designada derivação regressiva). Esta consiste na mudança de classe de uma dada palavra, como se observa nas frases (1) e (2),  que exemplificam a conversão do adjetivo português no nome/substantivo português:

(1) «Este produto é português.» (adjetivo)

(2) «O português trouxe produtos do seu país.» (nome/substantivo)

A presença do artigo definido em (2) assinala a classe de pertença da palavra, ou seja, a classe do nome/substantivo, que é a única compatível com artigo definido. Note-se, porém, que o artigo definido não é a única possibilidade de que os falantes dispõem para assinalar a presença de um vocábulo pertencente à classe do nome/substantivo. Esta sinalização pode ser feita por meio de outro determinante, como por exemplo:

(i) um artigo indefinido: «Um português trouxe produtos do seu país.»

(ii) um demonstrativo: «Este português trouxe produtos do seu país.»

(iii) um indefinido: «Certo português trouxe produtos do seu país.»

A mudança de uma palavra para a classe dos nomes/substantivos pode também implicar a adoção de algumas características flexionais próprias do nome. Assim, o adjetivo português, quando sofre um processo de conversão para a classe do nome, pode flexionar em género (3) ou número (4), características típicas do nome (mas também do adjetivo, classe de origem):

(3) «A portuguesa trouxe produtos do seu país.»

(4) «Os portugueses trouxeram produtos do seu país.»

Nestes casos, o determinante, artigo definido ou outro, concorda em género e número com o nome que acompanha.

Porém, há casos de conversão em que a palavra não assume todas as propriedades flexionais do nome. É o caso da conversão do infinitivo que admite a flexão em número (5a) mas não em género (5b):

(5) «O olhar era profundo.» 

(5a) «Os olhares eram profundos.»

(5b) «*A olhar era profunda.»

Estas mesmas propriedades flexionais apresenta o pronome pessoal eu quando convertido em nome (6), ou seja, é compatível com flexão em número (6a) mas não em género (6b):

(6) «O eu poético trata o tema da tristeza.»

(6a) «Os eus poéticos tratam o tema da tristeza.»

(6b) «*A eu poética trata o tema da tristeza.»

Estas propriedades flexionais manter-se-ão mesmo se o nome/substantivo eu apontar para um referente extralinguístico do género feminino, até porque, como é sabido, o género da língua não tem, na grande maioria das situações, uma relação direta com o género natural: quando se afirma «uma árvore», por exemplo, não se dá uma indicação de que a árvore pertence ao género natural feminino. Por esta razão, nesta situação só se admite o artigo definido no masculino singular ou plural. 

A equipa do  Ciberdúvidas agradece as gentis palavras do consulente.

Carla Marques
Tema: Classes de palavras Classe de Palavras: artigo
Áreas Linguísticas: Léxico; Morfologia Campos Linguísticos: Contrastes de género