A grafia portuguesa de topónimos estrangeiros - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A grafia portuguesa de topónimos estrangeiros

Gostaria que me dissessem qual a grafia portuguesa mais correcta dos seguintes topónimos estrangeiros:

Adiguésia ou Adigueia (república russa)?

Ajária ou Adjária (república russa)?

Anju ou Anjú (região francesa)?

Arrochela ou Rochela (cidade francesa)?

Bachequíria ou Basquíria (república russa)?

Bizerta ou Biserta (cidade da Tunísia)?

Bucóvina ou Bucovínia (região da Roménia)?

Camecháteca ou Canchatca?

Catânia ou Catana (cidade da Sicília)?

Cuala Lumpur ou Quala Lumpur (capital da Malásia)?

Estetino ou Estetim (cidade da Polónia)?

Goteburgo ou Gotemburgo (cidade sueca)?

Hainaut, Henau ou Hainaute (província da Bélgica)?

Hessen, Héssia ou Hesse (land da Alemanha)?

Iacútia ou Jacútia (república russa)?

Lviv, Leópolis ou Lemberga (cidade da Ucrânia)?

Mekong, Mecão ou Mecom (rio asiático)?

Midelburgo ou Meldeburgo (cidade holandesa)?

Mogadíscio ou Mogadixo (capital da Somália)?

Osaca ou Ósaca (cidade do Japão)?

Pittsburgo ou Pitesburgo (cidade da Pensilvânia)?

Surrento ou Sorrento (cidade italiana)?

Taline ou Talim (capital da Estónia)?

Toscana ou Toscânia (região italiana)?

Xaém o Jaém (cidade espanhola)?

Auclanda ou Auckland (cidade da Nova Zelândia)?

Ascabade ou Asgabate (capital do Turcomenistão)?

Bearne ou Bearn (região francesa)?

Belfaste ou Belfast (Irlanda do Norte)?

Berga ou Berguen (cidade norueguesa)?

Bisqueque ou Bishkek (capital do Quirguizistão)?

Brisbânia ou Brisbane (cidade australiana)?

Nuaquechote ou Nouakchott (Mauritânia)?

Quixineve ou Quichineve (capital da Moldávia)?

Pionguiangue ou Pyongyang (Coreia do Norte)?

Windhoek ou Vinduque (capital da Namíbia)?

Particularmente gostaria de saber qual destes aportuguesamentos regista o Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves.

Peço desculpa pela extensão da pergunta.

Muito obrigado.

David Ordoñez Lexicógrafo Barcelona, Espanha 6K

Em primeiro lugar, uma chamada de atenção: nem todas as formas portuguesas de corónimos1 e topónimos estrangeiros têm uso. Por exemplo, diz-se Milão em vez de Milano, mas usa-se Buenos Aires em lugar de "Bons Ares", que seria a versão portuguesa correspondente. Um critério para usar o aportuguesamento de corónimos e topónimos estrangeiros acha-se, por exemplo, na Base LI do Acordo Ortográfico de 1945:

«Recomenda-se que os topónimos de línguas estrangeiras se substituam, tanto quanto possível, por formas vernáculas, quando estas sejam antigas em português, ou quando entrem, ou possam entrar, no uso corrente. Exemplos: Anvers, substituído por Antuérpia; Berne, por Berna; Canterbury, por Cantuária; Cherbourg, por Cherburgo; Garonne, por Garona; Helsinki, por Helsínquia; Jutland, por Jutlândia; Louvain, por Lovaina; Mainz, por Mogúncia; Montpellier, por Mompilher; München, por Munique; Zürich, por Zurique; etc.»

Feita esta advertência, limitar-me-ei ao português europeu na identificação dos corónimos e topónimos em questão, para o que me apoiarei nas obras de Rebelo Gonçalves que seguem o Acordo Ortográfico de 1945, no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa (TOLP), de 1947, e no Vocabulário da Língua Portuguesa (VLP), publicado em 1966; referirei também o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado em 2009 pela Porto Editora (VOLP PE), obra em que se aplica o Acordo Ortográfico de 1990. Assinale-se que a comparação entre as obras de Rebelo Gonçalves com o VOLP PE de 2009 permite encontrar alguns contrastes em relação a nomes geográficos, que decorrem naturalmente de alterações no mapa político mundial e na projecção de estrangeiros países na comunicação social de Portugal nos últimos sessenta anos.

Assim, pela mesma ordem em que aparecem na pergunta:

"Adiguésia"/"Adigueia" (república russa): não consta de nenhuma das obras consultadas; não há forma de uso generalizado.

"Ajária/Adjária (república russa): não consta de nenhuma das obras consultadas; não há forma de uso generalizado.

Anju (França) «topónimo: equiv[alente] vern[áculo] do fr[ancês] Anjou» (VLP); não consta do VOLP PE.

Arrochela (França): «topónimo: equiv[alente] vern[áculo] do fr[ancês] La Rochelle» (VLP); também consta do VOLP PE.

Basquíria (Federação Russa): não consta do VLP nem do TOLP, mas encontra-se regist{#|r}ada no VOLP PE.

Bizerta (Tunísia): VLP; não consta do VOLP PE.

Bucóvina (Roménia): VLP; não consta do VOLP PE

Camecháteca (Federação Russa): não consta do VLP nem do TOLP, nem do VOLP PE, mas I. Xavier Fernandes (Topónimos e Gentílicos, vol. 1, Porto, Editora Educação Nacional, 1941, pág. 53) apresenta-a como forma portuguesa, ao lado de "Kamtchatka" e "Camchatca", classificadas como formas estrangeiras ou mal aportuguesadas. De qualquer modo, trata-se de um aportuguesamento que ainda não se fixou.

Catânia (Sicília, Itália): VLP; não consta do VOLP PE.

Kuala Lumpur (capital da Malásia): não consta nem do VLP nem do TOLP, mas é assim registado no VOLP PE.

Estetino (Polónia): a forma portuguesa baseia-se na forma alemã (Stettin) e não na polaca (Szczecin) —«top[ónimo]. equiv[alente] vern[áculo] do al[emão] Stettin» (VLP); não consta do VOLP PE, nem parece ter hoje uso.

Goteburgo (Suécia): «Equiv. vern. do sueco Göteborg» (VLP); não consta do VOLP PE. No entanto, na Infopédia (Porto Editora), encontro a forma Gotemburgo, que deve ser adaptação de formas assinaladas por nasalidade: Gothenburg, em inglês, alemão, neerlandês, e Gothembourg, em francês. Parecem-me legítimas ambas as formas, Goteburgo, aportuguesamento do sueco Göteborg, e Gotemburgo, aportuguesamento baseado numa forma tradicional europeia mas não sueca.

Hainaut (Bélgica): sem aportuguesamento nas fontes consultadas.

Hessen (Alemanha): sem aportuguesamento nas fontes consultadas; Hessen é a forma alemã, enquanto Hesse é forma que ocorre em espanhol, francês e inglês tal como em português; existe uma variante, Hessia, que pode ser aportuguesada como Héssia. De qualquer modo, o aportuguesamento deste nome ainda não se fixou.

Iacútia (Federação Russa): sem registo no VLP, que, no entanto, acolhe Iacuto; o VOLP PE acolhe as entradas Iacútia e Iacuto.

Lemberga, Lviv, L´vov ou Leópolis (Ucrânia): topónimo sem aportuguesamento moderno; o VLP, publicado em 1966, regist{#|r}a Lemberga, aportuguesamento de Lemberg, nome alemão da  cidade até à 1.ª Guerra Mundial; parece que a tendência hoje é usar a forma ucraniana, em lugar da alemã ou da russa (Львов, transliterada como L´vov). O VOLP PE acolhe a entrada Leópolis, que é nome latino da cidade (cf. artigo em inglês na Wikipedia). Trata-se de nome cujo aportuguesamento ainda não se fixou.

Mecom (rio asiático): VLP; não consta do VOLP PE.

Middelburg (Holanda): atendendo à configuração do nome, "Midelburgo" é aportuguesamento possível, mas não sancionado pelas fontes consultadas, que não acolhem nem nome neerlandês, nem aportuguesamento;

Mogadíscio ou Mogadixo (capital da Somália): formas que ocorrem só no VOLP PE.

Osaca ou Ósaca (cidade do Japão): não constam das fontes consultadas, mas Osaca é o aportuguesamento registado na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e na Enciclopédia  Luso-Brasilera de Cultura Verbo; Ósaca aparece no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa de 1940 (ver resposta n.º 21 389).

Pittsburg (Pensilvânia, Estados Unidos): "Pittsburgo" ou "Pitesburgo" não constam das fontes consultadas; usa-se a forma inglesa.

Sorrento (Itália): assim registado no VLP e no VOLP PE.

Talinn (capital da Estónia): "Taline" não consta das fontes consultadas; no VOLP PE, acolhe-se Talim e Talin, mas sem indicação de que se trata realmente do aportuguesamento do nome da capital da Estónia; no Código de Redacção Interinstitucional do portal Europa (União Europeia) consigna-se a forma estrangeira.

Toscana (Itália): assim registado no VLP e no VOLP PE. Toscana, top. f.: região da Itália»

Jaén ou Xaém (Espanha): Xaém é «o equivalente vernáculo de Jaén», no VLP; o nome da cidade andaluza não consta do VOLP PE.

Auckland (Nova Zelândia): sem aportuguesamento nas fontes consultadas.

Achgabad (Turcomenistão): assim registado no VOLP PE; "Ascabade" ou "Asgabate" não constam das as fontes consultadas.  

Béarn (França): não tem aportuguesamento nas fontes consultadas; na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira ocorre como Bearn, sem acento, mas a Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura Verbo acolhe a forma francesa.

Belfaste ou Belfast (Irlanda do Norte): as duas formas não constam do VLP, mas estão registadas no VOLP PE.

Berga (Noruega): assim registado no VLP como equivalente vernáculo do norueguês Bergen.

Bisqueque (Quirguizistão): assim registado no VOLP PE.

Obs.: O Código de Redacção Interinstitucional do portal Europa (União Europia) apresenta a forma "Bichkek", que me parece uma adaptação discutível de Bishkek, uma das transliterações internacionais de Бишкек (em russo e em quirguiz; cf. artigo em inglês da Wikipedia). É que, se se usa <ch> no aportuguesamento, então também deveria usar-se <qu> como transliteração de k, o que resultaria na forma "bichqueque", não atestada.

Brisbane (Austrália): sem aportuguesamento no VLP nem no VOLP PE.

Nuaquechote (Mauritânia): assim registado no VOLP PE.

Chisinau ou Quichinau (Moldávia): ambas as formas estão registadas no VOLP PE; "Quixineve" ou "Quichineve" não constam como aportuguesamentos nas fontes consultadas.

Pionguiangue (Coreia do Norte): assim registado no VOLP PE.

Windhoek ou Vinduque (Namíbia): ambas as formas estão registadas no VOLP PE.

1 Corónimo: «nome designativo de continente, país, região, pátria, estado, província, divisão administrativa qualquer (abrangido pela toponímia ou geonímia)» (Dicionário Houaiss).

Carlos Rocha
Tema: Uso e norma Classe de Palavras: substantivo
Áreas Linguísticas: Léxico; Morfologia