Providenciar em vez de prover - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Providenciar em vez de prover

A diferença entre ambos os verbos, neste apontamentodo jornalista Wilton Fonseca, publicado no jornal i, a propósito de uma outra palavra mal utilizada pelo primeiro-ministro português.

 

Com a sua “refundação”, Passos Coelho mostrou mais uma vez a pouca familiaridade com que ele e o seu Governo tratam a língua portuguesa. A incapacidade de exprimir claramente uma ideia demonstra incapacidade mental e ideológica.

Jornalistas e comentadores deram tratos à bola, no afã de descortinar o significado e o alcance da “refundação”, mas deixaram escapar uma magnífica frase do mesmo discurso: «Só ao Estado cabe a responsabilidade de providenciar.» Coelho queria dizer que só ao Estado cabe a responsabilidade de prover.

Providenciar é tomar uma medida ou uma disposição adequada para fazer face a determinada situação (tomar uma providência), diz respeito a uma medida singular, única. Prover é tomar todas as medidas ou disposições necessárias para assegurar a realização ou a concretização de um determinado facto (Deus provê). Refere-se a um conjunto de factos, a uma pluralidade de acontecimentos.

Num momento em que o Governo [português] loucamente lança a discussão sobre a “refundação” do Estado, não seria possível providenciar um revisor para os discursos governamentais? Apesar de tanto a “refundação” como a revisão de textos não constarem do programa apresentado aos eleitores...

Fonte

In jornal i de 5 de novembro de 2012, na coluna do autor Ponto do i. Manteve-se a antiga ortografia, seguida pelo jornal.

Sobre o autor

Jornalista português nascido no Brasil, é licenciado em Filologia Românica (Faculdade de Letras de Lisboa) onde lecionou Introdução aos Estudos Linguísticos, Sintaxe e Semântica do Português. Foi diretor de Informação das agências noticiosas Anop e NP, chefiou os serviços de comunicação das fundações Gulbenkian e Luso-Americana para o Desenvolvimento. Foi chefe de Informação (PIO) das missões de paz das Nações Unidas em Angola, Timor-Leste, Kosovo e Burundi. Foi diretor-geral da Leya em Angola.