O Dia de Camões (também) em Cabo Verde, um topónimo balcânico e o português nas escolas galegas - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O Dia de Camões (também) em Cabo Verde, um topónimo balcânico e o português nas escolas galegas
O Dia de Camões (também) em Cabo Verde,
um topónimo balcânico e o português nas escolas galegas
Por Ciberdúvidas da Língua Portuguesa 326

1. A data de 10 de junho é a do feriado* que assinala em Portugal a memória de Camões e da sua epopeia Os Lusíadas, exemplo de apuro literário que, sem deixar de refletir a voz imperialista do passado, é hoje documento do processo de expansão que levou a língua portuguesa a todo o mundo. As comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas permitem, portanto, dirigir a atenção para Estados onde o português se tornou também língua materna ou língua segunda. Compreende-se, assim, que em 2019, o programa oficial comemorativo decorra não só na cidade de Portalegre, em Portugal, mas também em Cabo Verde, país cuja herança bilingue espelha bem meio milénio de história linguística planetária. Cabo Verde tem sido tema sempre retomado no Ciberdúvidas: realçamos "A nossa língua portuguesa", um texto de Germano de Almeida, mas outros são de mencionar, como sejam "A língua portuguesa e o crioulo cabo-verdiano", "Literatura cabo-verdiana", "Bilinguismo cabo-verdiano", "As línguas crioulas de Cabo Verde e da Guiné", "Quantas línguas cabem na língua portuguesa?", "Cabo Verde, sem tradução" ou "O regionalismo morabeza (Cabo Verde)".

Devido ao feriado, a próxima atualização fica marcada para dia 12 de junho de 2019.

* Escreve-se «o 10 de Junho», com maiúscula inicial em junho, quando se faz referência ao feriado e à comemoração associada (ver n.º 2 da Base XIX do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990). A forma «10 de junho» é grafia da simples menção do dia, conforme a data no calendário, sem alusão ao feriado comemorado em Portugal. Na imagem,
a capa de Os Lusíadas, na edição de 1572.

2. No Consultório, voltamos à questão do aportuguesamento de topónimos estrangeiros, comentando o caso do nome da cidade montenegrina de Nikšić (Montenegro, na península dos Balcãs), falamos do conceito de polaridade a propósito da expressão «nem por sombras!», sugerimos maneiras de uma turma expressar um agradecimento – «obrigado»,  «obrigada», «obrigados» ou «bem haja»? – e procuramos conciliar regências e pronomes relativos para obter uma frase correta. Por fim, não esquecendo Camões, interpretamos os versos que fecham o Canto I de Os Lusíadas e dão noção da desmesura que foi navegar até à Índia:

«Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
contra um bicho da terra tão pequeno?»

3. Navegar na Internet estará mais ao alcance dos nossos humanos desígnios, mas é tarefa não isenta de percalços. A informação colhida pode ser interessante, como parece acontecer com um texto disponível no sítio eletrónico NCultura: trata-se de uma lista de apelidos supostamente representativos dos usos onomásticos das comunidades judaicas ao longo da sua história em Portugal e no Brasil. Sucede, porém, que muitos dos apelidos inventariados têm origem fora do contexto cultural judaico. Por exemplo, é muito duvidoso que Carvalho ou Oliveira sejam apelidos de origem judaica, e mais plausível será que tenham relação com a toponímia portuguesa («alguém que era do lugar de Carvalho ou do lugar de/da Oliveira»), pelo que podiam tomar tais apelidos tanto um cristão-velho como um cristão-novo (um judeu geralmente convertido à força). Trata-se, portanto, de matéria cujo estudo, avesso a precipitações, não dispensa cuidados e convoca conhecimentos de história local e de genealogia (na imagem correspondente a este parágrafo, Perush Ha-Berakoth Ve-Ha-Tefillot, incunábulo hebraico impresso em Portugal, na Oficina de David Abudrahan em Lisboa, 1489 – fonte: sítio Tipografia).

4. O português torna a ser notícia na Galiza, paradoxalmente por afirmações feitas no Brasil, país onde decorre uma visita do presidente da Real Academia Galega, Víctor Fernández Freixanes. Segundo o jornal digital galego Praza, Freixanes, em intervenção feita em 5/06/2019, no I Seminário Internacional para Estudos Linguísticos. Galego e Português: o passado presente, realizado na Universidade Federal Fluminense (Niterói), considerou que os galegos têm de reivindicar o português nas escolas como língua irmã, «non para substituír o galego, senón para apoiarnos nel cara á [em direção à] proxección exterior»; lamentou ainda a escassa implantação deste idioma na rede de ensino da Galiza, apesar da aprovação por unanimidade no parlamento galego, em 2014, da denominada Lei Paz Andrade (ler também aqui).

5.  Outra notícia: encontra-se aberto até dia 21 de julho de 2019 um concurso para atribuição de duas Bolsas de Cientista Convidado do IILP (BCC do IILP), ao abrigo do Programa de Bolsas de Cientista Convidado do Instituto Internacional de Língua Portuguesa – IILP. Detalhes do  edital aqui.

6. Sobre os programas que o Ciberdúvidas produz para a rádio pública portuguesa, recordamos que, na presente semana, o Língua de Todos, transmitido pela RDP África na sexta-feira, 7 de junho (depois do noticiário das 13h00*; com repetição no dia seguinte, pelas 9h15*), destaca a digitalização dos acervos das bibliotecas dos grémios literários de Belém do Pará, do Recife e de Salvador da Bahia, graças ao financiamento de um grupo de empresários brasileiros de origem portuguesa. No Páginas de Português, em foco, a XIV Reunião Ordinária do Conselho Científico do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, a qual decorreu na cidade da Praia (Cabo Verde), de 27 a 29 do passado mês de maio (programa emitido na Antena 2no domingo, 9 de junho às 12h30*, com repetição no sábado seguinte, dia 15 de junho, às 15h3*).

* Os programas Língua de Todos e Páginas de Português ficam disponíveis, posteriormente, aqui e aqui.