DÚVIDAS

O uso de «Viena de Áustria»
Nas minhas conversas com pessoas a partir, talvez, dos cinquenta anos, noto que usam regularmente o termo «Viena da Áustria» referir a capital austríaca. É algo que não vejo dito pela minha própria geração (Z), pois dizem apenas Viena - mas pessoas um pouco mais velhas dizem essa versão extensa. Não usam isto para se referirem a qualquer outra capital, que eu saiba. Suspeito que poderá ser para não causar confusão com Viana, e talvez tenha uma relação com Viana do Castelo, mas é estranho na mesma - especialmente a diferença entre as vogais. Será isto real ou impressão minha, ou talvez um nicho geográfico ou mesmo pessoal, ou algo etário / cultural? Agradeço desde já - ando curioso com esta dúvida há muito tempo. O vosso trabalho é inestimável!
A construção proporcional «quanto mais..., maior...»
Deparei-me com a seguinte construção, e minha curiosidade exacerbada não deixa passar as minúcias: «Quanto mais rico for o seu vocabulário, maior será o poder de convencimento de suas idéias.» O que me chamou atenção foi a construção correlativa «quanto mais…maior», que deveras nunca vi abonada nem descrita em nenhuma fonte. Será que se pode fazer uso dessa construção sem ofender a boa norma culta? Obrigado.
Dois-pontos depois de travessão
Ao consultar algumas gramáticas normativas de língua portuguesa, encontrei orientações a respeito do emprego de sinais de pontuação após o travessão, quando esses sinais seriam necessários mesmo na ausência dele. As explicações que encontrei, porém, referem-se à vírgula e, eventualmente, ao ponto e vírgula. Para ilustrar, Carlos Nougué, na Arte de Escrever Bem na Língua Portuguesa, observou: «Quando haveriam de coincidir um travessão e uma vírgula ou um ponto e vírgula, estes últimos podem ou omitir-se ou, como o preferimos decididamente por razões de clareza, usar-se depois daquele (e unido a ele)». No entanto, fico me perguntando se os dois-pontos também podem ser empregados segundo essa mesma lógica, isto é, se podem aparecer após um travessão quando seriam necessários independentemente da intercalação. Considerem-se os seguintes exemplos: > O problema – até então ignorado –: a ausência de critérios objetivos. > A única alternativa viável – segundo os especialistas consultados –: reformular integralmente o projeto. > A conclusão a que chegamos: não havia outra solução possível. Em todos esses casos, os dois-pontos introduziriam uma especificação, explicação ou conclusão relativa ao segmento anterior, desempenhando, a meu ver, essa função independentemente da intercalação. Se esta fosse eliminada, os dois-pontos permaneceriam: > O problema: a ausência de critérios objetivos. > A única alternativa viável: reformular integralmente o projeto. > A conclusão a que chegamos: não havia outra solução possível. Parece-me, portanto, razoável supor, por analogia, que os dois-pontos também possam ser mantidos após o travessão. Além disso, a supressão do travessão de fechamento poderia comprometer a clareza da construção, por tornar menos evidente o limite da intercalação e dificultar a identificação da estrutura sintática pretendida. Assim, é possível empregar dois-pontos após um travessão em casos como os apresentados? Existe alguma gramática, manual de redação ou outra obra que trate expressamente dessa possibilidade, admitindo-a ou rejeitando-a? Agradeço desde já pelo espaço e pelas eventuais contribuições!
Usos adjetival e participial de morto
A mim foi-me dito que, na frase «o jovem morto havia sido transferido ao hospital», a palavra morto é, em sua origem, um verbo, mas que na frase em questão ela é um adjetivo, portanto, não há de se falar sobre haver uma oração subordinada adjetiva surgindo desta palavra. Se a palavra em questão é, nesta análise, tão somente um adjetivo, isso não faria com que as orações subordinadas adjetivas reduzidas deixassem de existir? Digo, na frase «o jovem que foi morto havia sido transferido ao hospital» há uma oração subordinada adjetiva desenvolvida; a sua versão reduzida seria justamente «o jovem morto [...]», mas, se não há verbo nesta aqui, então a nomenclatura «oração subordinada adjetiva reduzida de particípio» serve para que e designar o quê, exatamente? É uma oração composta por um adjetivo? Obrigado.
«Eis que»
Gostava de saber se existe registro oficial, e com referência lexicográfica, que trate de abonar, especificamente, o uso da locução «eis que» em acepção diferente de «subitamente»/«de repente». Eu não encontrei. Não obstante, deparei-me com os seguintes empregos da expressão, motivo de minha dúvida: «Entre o oficialato mesmo, não se conhece um que proceda de família ilustre ou renomada, eis que nenhum aristocrata aceitará farda na família.» (JU) «[…] deve-se aguardar o procedimento previsto para a execução contra a Fazenda até a expedição da requisição – incumbência do Juízo, não podendo ser imputada como falta ou violação de um dever pelo INSS, eis que a ele é defeso fazê-lo.» Obrigado.
Falsas esdrúxulas e didática do português
Sei que existem pontos de vista diferentes quanto à classificação tónica das seguintes palavras: família, remédio, extraordinário etc. Ora, já vi serem classificadas como graves (assumindo que as duas últimas vogais formam um ditongo crescente e não um hiato) e também como esdrúxulas (assumindo as duas vogais finais como um hiato e portanto duas sílabas). Sei também que existe a designação de «falsas esdrúxulas» ou «esdrúxulas aparentes», através da consulta que fiz pelo vosso site. Ora, a verdade é que no 1.º e 2.º ciclos do ensino básico existem muitos exercícios em manuais com este tipo de palavras para serem classificadas quanto à sílaba tónica. Existe alguma norma para o ensino básico? Devem ser classificadas como esdrúxulas ou graves? No Dicionário Terminológico não encontrei resposta para esta questão. Muito obrigado ao Ciberdúvidas pelo excelente trabalho.
«Tanto..., tanto...»: uma construção errónea
Existe a expressão «tanto [...] quanto [...]»; por exemplo: «João foi bem tanto na prova de português quanto na de matemática.» Contudo, vejo muitas pessoas usarem «tanto [...], tanto [...]», o que me parece bem errado: «João foi bem tanto na prova de português, tanto na de matemática.» Afinal, está correta essa segunda forma? Meus cumprimentos à equipe do Ciberdúvidas, que brilhantemente cultiva a norma culta do português e tira todas as nossas dúvidas.
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa