A estrutura «eis que» com valor causal tem registo de uso não normativo e sendo condenada por alguns gramáticos brasileiros.
Napoleão Mendes de Almeida, por exemplo, reprova o uso em apreço, citando Otoniel Mora: «”Eis que” por “visto que” […] é locução disparatada que gera ambiguidade quase fatalmente. Sempre que a encontro, tenho de voltar rasto atrás e reler o que vinha lendo, para concatenar as ideias.»1. A mesma posição assume o gramático Evanildo Bechara, que aconselha, no contexto do estudo das orações subordinadas adverbiais causais: «Evite-se na língua padrão o emprego de de vez que e eis que por não serem locuções legítimas.»2
Não obstante, numa busca ao Corpus do Português, de Mark Davies, é possível identificar algumas situações de uso de «eis que» com um valor causal, sobretudo em textos escritos em português do Brasil:
(1) «Logo, o sacrifício de Papelão, longe de representar um agravo ao touro (ou ao boi) e uma truculência do toureiro, era apenas um fato que precisava ser lamentado e esquecido, eis que havia coisas mais importantes no mundo em geral e em Rodeio em particular.» (Carlos Heitor Cony, O Piano e a Orquestra. 1996)
(2) «Segundo maledicentes, meu fígado deveria ser legado a ciência, com que até não tenho moral para discordar com muita veemência, mas, quanto ao resto, faço objeções, eis que o estado geral de meus órgãos não me parece capaz de passar por um controle de qualidade medianamente rigoroso.» (Ivan Lessa, “Há uma roubórgão em nosso futuro”, Folha de São Paulo, 2/23/1997)
Em suma, «eis que» com valor causal é uso não normativo, mas cujo uso é possível identificar pontualmente em registos escritos.
Disponha sempre!
1. Napoleão Mendes de Almeida (2003). Dicionário de questões vernáculas. Ática, p. 91.
2. Evanildo Bechara (2009). Moderna gramática portuguesa. 37.ª ed., Lucerna, p. 406.