Não há norma didático-pedagógica para a questão das chamadas «falsas esdrúxulas», um problema da língua portuguesa bem conhecido na descrição da estrutura silábica e da acentuação, que se pode enunciar assim:
– Em português, existem ditongos crescentes, isto é, unidades fónicas formadas por uma semivogal (glide) e uma vogal plena? Ou seja, encontros vocálicos como ia – em posição pretónica, como em piada, ou em posição postónica, como em história, – constituem ditongos crescentes?
A resposta não é de hoje, e admite-se que, em teoria (fonologicamente), o português não tem ditongos crescentes – só que, na prática, eles existem. E, na verdade, mesmo no documento normativo de 1945 (Base XIII), dava-se conta do facto:
«3.° Além dos ditongos orais propriamente ditos, os quais são todos decrescentes, admite-se, como é sabido, a existência de ditongos crescentes. Podem considerar-se no número deles os encontros vocálicos postónicos, tais os que se representam graficamente por ea, eo, ia, ie, io, oa, ua, ue, uo: áurea, áureo, colónia, espécie, exímio, mágoa, míngua, ténue, tríduo.»
Deste modo, e apesar de algumas gramáticas de há 50/60 anos apresentarem, p. ex., áureo, ignorância e ciência como palavras esdrúxulas1, a realidade é que hoje tendemos a tratar palavras escritas com acento agudo e terminadas em -ia, -ie (cárie), -io (sério) e todas as outras do tipo indicado na citação, como palavras muito especiais, que oscilam entre as esdrúxulas (ex.: pérsico) e as graves com acento gráfico (ex.: hóquei, órfão).
Em suma, em Portugal, no contexto do 1.º e 2.º ciclo – e mesmo no 3.º ciclo – do ensino básico, será preferível não incluir as falsas esdrúxulas entre os exemplos de palavras esdrúxulas ou proparoxítonas no estudo do acento fonológico e gráfico.
1 Cf. J. M. Nunes de Figueiredo e A. Gomes Ferreira, Compêndio de Gramática Portuguesa, Porto Editora/Livraria Arnado/Empresa Litográfica Fluminense, 1976, p. 353.