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A pronúncia de Isabel II ao longo de 70 anos
A pronúncia de Isabel II ao longo de 70 anos
O que o inglês da rainha revelou de um mundo em mudança

« (...)  Há outras mudanças mais subtis que podem ser mapeadas nas décadas de gravações da Rainha [Isabel II]  e que permitem que os cientistas entendam como os sotaques evoluem ao longo do tempo e como eles podem ser influenciados por mudanças sociais, culturais e tecnológicas. (...)»

 

O longo reinado de Isabel II levou a que ela assistisse a muitas mudanças no mundo ao seu redor, desde o tempo dos racionamentos e dos lendários nevoeiros densos (pea-soupers) até à época das redes sociais e das pandemias. Como monarca que mais anos ocupou o trono do Reino Unido, também se tornou um símbolo mundial de princípios firmes e de estabilidade. No entanto, após sete décadas de reinado, a rainha deixou um legado único e precioso que mudou com o tempo: a sua voz, captada por décadas de gravação.

O sotaque distinto de Sua Majestade, transmitido por meio de discursos públicos, transmissões de rádio, televisão e depois pela Internet, faculta uma visão única de como o mundo mudou durante seu longo reinado – e como ela mudou dentro dele. Também apoia os indícios crescentes de que os nossos padrões de fala permanecem mais flexíveis ao longo da vida humana do que se pensava anteriormente, absorvendo e refletindo as nossas experiências e memórias – mesmo na velhice.

Poucas pessoas deixaram um registo tão rico e pormenorizado da sua voz. Nos últimos dias, milhões de pessoas em todo o mundo assistiram e ouviram a transmissão da falecida rainha no seu 21.º aniversário em 1947. Na época, ainda era uma princesa, mas já determinada a fazer uma promessa solene ao seu povo: «Declaro-vos que toda a minha vida, seja longa ou curta, será dedicada a estar ao vosso serviço.»

Dando um salto para o século XXI e para a sua última transmissão de Natal, a rainha lembrou de maneira pungente o falecido marido e dirigiu palavras calorosas a um país traumatizado pela pandemia de covid-19. «Embora seja um momento de grande felicidade e de esperança para muitos, o Natal pode ser difícil para aqueles que perderam entes queridos. Este ano, especialmente, percebo porquê», disse.

Mesmo para o ouvido destreinado, a diferença entre essas duas gravações é clara. A primeira é a mudança na sua própria voz, que se tornou mais profunda e amadureceu fisicamente à medida que envelheceu, refletindo o que acontece à maioria das pessoas à medida que envelhecem. Mas há outras mudanças mais subtis que podem ser mapeadas nas décadas de gravações da Rainha e que permitem que os cientistas entendam como os sotaques evoluem ao longo do tempo e como eles podem ser influenciados por mudanças sociais, culturais e tecnológicas.

«A mudança fonética é muito lenta, e, portanto, se quisermos ver como ela muda durante a vida de um adulto, precisamos de gravações da mesma pessoa ao longo de várias décadas», diz Jonathan Harrington, professor de fonética e diretor do Instituto de Fonética e Processamento da Fala na Universidade Ludwig-Maximilians de Munique. «A Received Pronunciation (pronúncia cuidada) – com que a rainha falava – e as suas mudanças de 1950-1980 são especialmente interessantes por causa das grandes mudanças sociais e a crescente mistura de classes que ocorreram na Inglaterra nas décadas de 60 e 70.»

A pronúncia cuidada tem sido considerada como o sotaque padrão do inglês britânico desde o final do século XIX, embora decorra um longo debate sobre como deve ser definido e até acerca do grau de difusão entre os falantes. É uma forma de pronúncia que ficou associada à aristocracia, à família real, ao establishment britânico e ao tom forçado dos anúncios da BBC durante a guerra (embora a BBC nunca tenha imposto o uso da pronúncia cuidada, muitos locutores antes da Segunda Guerra Mundial adotavam-na).

«Quem fala inglês britânico ainda considera o sotaque (pronúncia cuidada) e os que se lhe aproximam como sotaque de prestígio», diz Jane Setter, professora de fonética da Universidade de Reading, no Reino Unido.

A própria maneira de falar da Rainha tornou-se uma espécie de marca registada da pronúncia cuidada, motivando um dos seus outros nomes: o inglês da rainha (Queen's English). As suas mensagens de Natal, transmitidas todos os anos, mostraram que são uma maneira particularmente fiável de rastrear a voz e sotaque da soberana ao longo da história.

Juntamente com o seu colega Ulrich Reubold, Harrington analisou as mensagens de Natal da rainha Isabel II em profundidade para entender como o seu sotaque mudou em diferentes momentos da sua vida e porquê. Ao longo de vários estudos separados, estes investigadores analisaram 35 transmissões que a rainha fez entre os 26 e os 91 anos.

«Se encontrarmos mudanças na rainha, é razoável concluir que mudanças semelhantes provavelmente ocorrerão na maioria dos adultos ao longo da vida», diz Harrington, ao explicar porque optaram por se concentrar no sotaque da rainha nas suas mensagens de Natal. A pesquisa ajudou a desafiar a ideia de que nossos sotaques permanecem amplamente estáveis ​​quando atingimos a idade adulta. Observa-se que, pelo contrário, passam por mudanças constantes.

De um modo geral, os fatores que moldam a voz e o sotaque humanos ao longo da vida dividem-se em dois domínios. Algumas mudanças acontecem simplesmente por causa de processos fisiológicos – com o envelhecimento, o trato vocal muda de forma, enquanto as cordas vocais ficam mais finas e rígidas. Este processo pode fazer com que a voz fique mais aguda e trémula, mas em algumas mulheres as cordas vocais podem engrossar levando a uma descida do tom.

Há fatores externos que também podem ter um impacto na forma como falamos.

A análise das mensagens da rainha revela que nas primeiras décadas de seu reinado, o sotaque ficou menos aristocrático e um pouco mais comum, fazendo a vogal no final da palavra happy («feliz») soar mais como o ee em freeze («congelar») do que o i em bit («bocado»).

No entanto, a análise mais recente de Harrington e Reubold revela algo talvez ainda mais surpreendente: nos últimos anos de vida, o sotaque real voltou a parecer-se mais com a forma como a rainha falava na juventude.

Quando jovem na década de 1950, a rainha tinha um sotaque distinto, da classe alta. O a em sat («sentou-se»), por exemplo, seria pronunciado mais como set («colocar, dispor»), enquanto family («família») soaria mais como "famileh". Mas, à medida que o reinado avançou, o sotaque evoluiu.

«Uma marca da pronúncia cuidada da classe alta da década de 1950 era pronunciar often («frequentemente») e lost («perdido») com a vogal de caught («apanhado, pegado») em vez da atual vogal de cot («berço»), diz Harrington. «É interessante observar que, enquanto nas mensagens dos anos 50, a rainha usava often e lost com a vogal de caught, ela usa as duas formas – often com a voga de caught e often com a vogal de cot - nas mensagens da década de 70.»

Este encurtamento das vogais está associado a um sotaque muito mais conotado com a classe média na Grã-Bretanha. E essas mudanças continuaram na década de 90, de acordo com a análise de Harrington e Reubold, talvez refletindo transformações mais amplas na população e na sociedade em geral.

«Os sons de uma comunidade são atualizados porque imitamos as idiossincrasias fonéticas dos outros na conversação», diz Harrington. «Esta atualização dentro de uma conversa é tão pequena que não é perceptível, mas experiências feitas nos últimos 20 anos mostraram que, de facto, muitas vezes nos imitamos uns aos outros sem querer.»

Um estudo de Harrington e dos seus colegas revelou que um pequeno grupo de pesquisadores na Antártida, que eram de regiões diferentes – Islândia, Alemanhanoroeste dos EUA e várias partes do Reino Unido –, começou a desenvolver sinais embrionários de um sotaque comum depois de vários meses juntos em contacto próximo. Várias pesquisas sobre concorrentes que participam do programa (reality showBig Brother – um grupo de pessoas que não se conhecem são forçadas a viver juntos em isolamento durante meses – também sugere que alguns indivíduos parecem ser mais propensos a mudar de sotaque do que outros.

Parece provável, então, que pelo menos algumas das mudanças no sotaque da rainha eram simplesmente um reflexo das pessoas com quem ela entrou em contacto. O período entre 1950 e 1970 viu uma enorme revolução social na Grã-Bretanha, observam Harrington e Reubold. Confundiram-se as fronteiras entre as classes e a rainha talvez tenha conversado com mais falantes da classe média.

Os primeiros-ministros com quem Isabel II tinha audiências semanais, por exemplo, normalmente falavam com uma forma de pronúncia cuidada da classe alta na década de 50, mas esta situação deu lugar a uma mistura mais diversificada de sotaques na década de 60. Harold Wilson, que ocupou o cargo de primeiro-ministro duas vezes durante um total de oito anos, no período entre 1964 e 1976, manteve o seu sotaque do Yorkshire depois de crescer em Huddersfield, no norte da Inglaterra. Margaret Thatcher, que foi primeira-ministra de 1979 a 1990, tentou disfarçar as suas origens na classe média de Lincolnshire, nos East Midlands da Inglaterra. Numerosos primeiros-ministros também se descaíam com o que é conhecido como Estuary English («inglês do estuário do Tamisa») – tal como a nora da rainha, Diana, a Princesa de Gales, que produzia oclusivas glotais.

Fonte

Artigo* publicado em inglês no portal da BBC em 15 de setembro.