As horas diferentes das refeições na Galiza - Diversidades - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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As horas diferentes das refeições na Galiza
As horas diferentes das refeições na Galiza
Diferenças também na oralidade a norte e sul do rio Minho

«Ora, o «almorzo»/«almoço» é a primeira refeição, que por cá chamamos «pequeno-almoço». Já o «xantar»/«jantar» é por volta das 2 da tarde… A «cea»/«ceia» é a refeição que tomamos ao final do dia (...)»

 

Se formos até à Galiza e alguém nos convidar para jantar (usando a palavra com a pronúncia galega, que será algo como «xantar»), convém confirmar muito bem as horas. É provável que o galego ou a galega esteja a pensar no nosso almoço.

As três palavras para as três refeições mais importantes do dia, em galego, são:

  • ALMORZO / ALMOÇO
  • XANTAR / JANTAR
  • CEA / CEIA

Ora, o «almorzo»/«almoço» é a primeira refeição, que por cá chamamos «pequeno-almoço». Já o «xantar»/«jantar» é por volta das 2 da tarde… A «cea»/«ceia» é a refeição que tomamos ao final do dia (e não estou a falar da «ceia» à portuguesa, uma refeição leve antes de dormir. Estou mesmo a falar do jantar — no fundo, a ceia galega é como a Última Ceia de Jesus e dos Apóstolos: na verdade, é um jantar.

Olhemos agora para a maneira como os galegos escrevem a palavra «jantar» (ou seja, almoço — isto, para um português, é de dar a volta à cabeça)… Como saberão aqueles que acompanham o que escrevo no blogue Certas Palavras, a ortografia, na Galiza, é sempre interessante.

A ortografia oficial do galego propõe a forma «xantar». Este <x> representa a consoante que por cá representamos, na maioria das vezes, com um <ch>. Muitas palavras que, em português, são escritas com <j> ou com <g> (antes de <e> ou <i>) aparecem grafadas com <x> nos textos galegos. Isto acontece porque, a norte do Minho, não há distinção entre as consoantes das nossas palavras «chá» e «já».

Em português, são sons muito parecidos: a língua está na mesma posição e o som passa como uma corrente de ar turbulenta. É uma consoante fricativa palatal — a diferença é esta: no caso da consoante de «já», as cordas vocais vibram; no caso de «chá», não vibram. O <j> português representa uma consoante sonora; o <ch> representa uma consoante surda. Estamos perante dois fonemas diferentes, que permitem distinguir significados — e esta diferença está apenas na vibração ou não vibração das cordas vocais.

Os reintegracionistas, que defendem para o galego uma ortografia mais próxima da portuguesa, escrevem «jantar» (tal como também escrevem «almoço» e «ceia»). Note-se que, apesar desta diferença, jantam à mesma hora que os outros galegos (por volta das duas) e, na oralidade, também não distinguem os dois sons. Será estranho? Ora, é uma distinção gráfica sem reflexo na oralidade, tal como acontece, em português, com o <ss> e o <ç>, que representam o mesmo som. A ortografia mantém uma distinção que grande parte dos falantes já não faz na oralidade… Na Galiza, os reintegracionistas mantêm uma distinção gráfica que liga a ortografia à História da língua e ao uso actual daqueles que consideram ser falantes de outra variante da mesma língua.

Voltando ao jantar que afinal é almoço: não é assim tão difícil encontrar portugueses que se lembram de ouvir chamar «jantar» ao almoço. Se não é esse o significado no português-padrão, é um significado que sobreviveu muito tempo nos usos populares da língua. O português e o galego estão muito próximos — se atentarmos aos usos populares, não podemos deixar de reconhecer que estão intimamente ligados.

Curiosamente, quando um galego fala com um português e sabe desta diferença entre o uso dos mesmos nomes a norte e a sul do Minho, pode dar-se o caso (já me aconteceu) de usar as palavras à portuguesa, baralhando um português (como eu) preparado para usar os nomes à galega. Há vezes em que tentamos aproximar-nos tanto dos outros que tropeçamos. É mais uma volta no parafuso linguístico…

Fonte

Texto do autor transcrito seu blogue Certas Palavras (10/4/2020), com o título "A que horas é o jantar na Galiza?", escrito  segundo a norma ortográfica de 1945.

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