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Textos de autores lusófonos sobre a língua portuguesa, de diferentes épocas.
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Uma árvore subiu, escreveu Rilke nos Sonetos a Orfeu. Nelson Mandela é agora a Grande Alma que paira sobre nós, a incandescência do Puro Espírito. Que a África do Sul e o Mundo mereçam este barro humano que se moldou no incêndio da História do seu Povo, no de África e de todos os continentes.


Que o importante era o alexandrino
Dois cascos a galope encurvando o verso,

E do sarampo a só lembrança
Da rubra luz ao redor zumbindo
Ou
A clausura do tempo
em Constança?

E se foi Ela depois e de lá o Tejo
E a vela panda. Begónias!
E a pança.

Faz isto um hino
Magno cavaleiro ultramarino?


O avô, hemiplégico, sentado. A avó na ronda do quarto, entre a porta e a janela abertas.

O Verão escorrendo.

Então, Maria, não levas a goropelha1?

Olha, o senhor engenheiro...

A saia e o casaco dela, a malinha a condizer. A desmemória também, numa espécie de alívio expresso no sorriso inocente. O esforço dele para se erguer. Nos longos preparos para o passeio de domingo à tarde, bordejando o mar e o seu perfil, entretinham a velhice.

Entra-se pelo subúrbio adentro, pode ser em Maputo, e deparamo-nos com as cores chibantes de um estabelecimento comercial. Na precária parede exterior o desenho de um rosto masculino, encimado pela mancha escura do que se adivinha ser a cabeleira e uma tesoura alada, sem ar ameaçador, como se de um pequenino ngingiritane se tratasse, pássaro lesto e brincalhão a debicá-la. Encimando a porta, em letras tropegantes mas gordas, cada uma de sua cor, o nome funcional e solene: Cabelaria Corte R...

Por Mia Couto

Devia falar de letras, começo por números. Apenas 40 por cento de moçambicanos falam português. E falam-no como segunda língua. Só 3 por cento têm no português a sua língua materna.

O idioma português não é a língua dos moçambicanos. Mas, em contrapartida, ela é a língua da moçambicanidade. Há 30 anos, a Frente de Libertação de Moçambique, ainda na guerrilha anticolonial, viu no idioma lusitano uma arma para a unificação do país e a construção da Nação. Aquele instrumento que servira a ...

O céu
É uma m´benga
Onde todos os braços das mamanas
Repisam os bagos de estrelas.

Amigos:
As palavras mesmo estranhas
Se têm música verdadeira
só precisam de quem as toque
ao mesmo ritmo para serem
todas irmãs. (...)


Mpurukuma, Língua, corpo quase,
o que sou de sobrepostas vozes,
Bayete!
E tu, pássaro da alma, Mpipi adejando
sobre o losango tumultuante de cores,
Templo onde me cerco,
não me abandones, cão inflando para o rio
uma escarninha balada que nos enforca.

Esfumou-se a Torre na praia nocturna,
a preposição que olfactava o nervo
e Ele dorme ainda e expulso.

Quando a palavra surge, inteira, das águas
e os espíritos batem a respiração do batuque,
Ele ...

Por Mia Couto

Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.