O lago da língua * - Antologia - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O lago da língua *

O avô, hemiplégico, sentado. A avó na ronda do quarto, entre a porta e a janela abertas.

O Verão escorrendo.

Então, Maria, não levas a goropelha1?

Olha, o senhor engenheiro...

A saia e o casaco dela, a malinha a condizer. A desmemória também, numa espécie de alívio expresso no sorriso inocente. O esforço dele para se erguer. Nos longos preparos para o passeio de domingo à tarde, bordejando o mar e o seu perfil, entretinham a velhice.

Vinte anos de reforma forçada, mas a caixa de madeira com o fio-de-prumo, o nível, a colher, o esquadro, mantinha-se a um canto da varanda. Sem avonde1.

Zé, o senhor Costa saiu da cantina, o marafado1.

Mas que diacho tem o senhor Costa, sempre a embelicares1 com ele?!

Embloitado o homem, careca, com xitolo1 na esquina da 4.ª travessa e a Rua de Limbemburgo, tudo já subúrbio, na fronteira do asfalto.

O miúdo sentado na borda da cama, junto à cadeira do avô.

Coitadinha!... O dia inteiro nisto. Deram-lhe as sombras na cabeça. Nem sabe que és neto.

Maria, vai lá buscar a goropelha1. A tua filha não tarda nada que apareça para sairmos.

Olha o marafado1, macaco-cão… E virava-lhe as costas, nem de zanga, só na sua virada sonâmbula.

A língua em algarvio nas tardes de tsintsiva1 e da cafunga1, do passeio dos tristes, os rostos hieráticos dos avós no banco de trás do carro, ela em mnemónica surda com as quadras de António Aleixo, a caldeirada atufando para a janta. Os mil seres da água: o bezugo, o atuarro, a cavala, a garoupa, o carapau negrão, o sargo, o chicharro, o peixe-agulha, a sardinha, a bica, a raia, o polvo, peixes azuis e brancos, de posta. E os percebes!

As aventuras dos pescadores nem se assemelhavam à afoiteza dos apanhadores das mãos do mar, alapadas, as vagas da preia-mar ao amanhecer no rochame a pique. Espiolhando os ventos.

"Q´ando Dês q´ria/ do Pego aventava/ e do Norte chovia."

Era quando chegavam as mouras encantadas, avô?

Não. Pelas noites, as mais aluaradas, ou as de Fevereiro, pelas carretas, o branco brilhando das amendoeiras em flor. E o teu pai, cabeça de cascabulho, figo ruim, sempre pelos caminhos, eu atrás dele. Desde mufaninha1 a dar as inaiças1. Debo1 do moço! Agora está aí pelos aviões e cheiinho de vossemecês.

E os figos?

Abençoados! Figo branco, de caldeira, figo-flor, marchante, figo-da-ponte, da tulha, figos de Maio, figos de São João e de S. Miguel, figo-de-pita.

Esse sei, avô. Tem ali, ao pé do esquadrão. A figueira-da-índia.

Vai, pede à tua avó. Figos secos. Maria!... E os panos se desdobravam em perfume amelaçado.

Lembra-se do Rei?

Dé! De alexim, o porco cevado. Coitado dele. Lá se ficou na Praça. Tempos dum cabrão! Que aquilo era trabalhar de sol a sol, à quinhenta-dia e nada de falejar1. E eu nunca fui mantanas, Luís. Agora estou pràqui, forçado. Vês? A mão, hoje, mexe-se melhor. Ontem já me custou menos a alevantar-me.

E saiu de Portugal, não foi? O meu pai conta-nos.

Sim, a França depois da guerra. Escapei-lhe. Naquele tempo era às sortes. Uma terra madrasta, aquilo. Por lá era a reconstrução. E ganhei bem, como estucador. Trouxe a primeira bicicleta para Lagos. O teu pai e eu nas passeatas até à Vila do Bispo. A moçanhada de boca aberta, a languçar1.

Languçar1 é daqui, avô.

E, então?! Desde vinte e poucos calcorreei isto tudo, de norte a sul.

Neste incasião, andava eu por lá, em Tete. Terra e gente boa, menos os pardalões, cagaçalistas, eles todos, do intendente ao mestre-de-obras, sempre à gosma. E nós, no acampamento, de cholim, alumiando-nos a noite nas tendas.

Gaspas no céu, nem vê-las. Tudo limpo, não como aqui, que faz estas trovoadas e garnachos. Só me lembro das gavierras1 na barriga e nem foi do tinto, ao almoço. Dé! Três dias peado e acabramado.

Pernoitecemos. Eu já molanchão1 . A moçanhada na sacaneira do costume, prosando seus lobolos1 com as que se davam, malandras algumas, catrafieadas outras.

Deram-me por morto.

Cataléptico?

Morto. Três dias morrido. O que me acordou alembrou-se de me atirar água a ferver para os pés. O mesmo a quem, uma vez, no bar, dei tal murro, que o preguei de pantanquilhas. Nem se deve ter apercebido, tal a triosga. Vingou-se, pois. Mas acordou-me. Coitado do moço, já cá não está.

A volta pela marginal, o velhote palrando. O dorso verde da cidade alta, o machimbombo número dezassete, a mufanagem nas corridas de arco areia adentro. Ele pigarreando.

Agora fala-se muito.

Fala-se muito de quê, avô?

Cahora-Bassa.

Cabora-Bassa?

Não. Cahora-Bassa. Há cinquenta anos que conheço. Uma garganta fabulosa. E em baixo, o rio. Monte marafado, um espinhaço de cão, mas subi. Se fizerem a barragem, o lago que aquilo dá! Luís, há cinquenta anos que se fala nisso. Uma fartura. O Gago Coutinho foi dos primeiros.

Foi lá onde morreu?

Três dias. Os pés em carne viva, um mês para catralizar1.

A súbita noite com seu odor a canho, dos matos, um roçagar mestiço de moura encantada com tombasana descalça, nem demorada a transição de matizes crepusculantes, um lago da língua anunciando-se, léxico e morfologia atufando-se em cataplana, só a voz do avô arrelampada de dizeres resgatados, boca de peixe à tona, sequim para outro sal se fazendo - que se fazia - o cascabulho atento, trovando de amendoim e manga o figo uterino, a metamorfose estuante. Seu largo rio de tempo. O lago da língua habitando-se.

1 Glossário (conforme a ordem em que os termos aparecem no texto; utilização intencional de léxico algarvio e ronga/changana.)

Goropelha - no sentido de cesta onde se leva o carvão.
Avonde - arcaísmo; sem utilidade, préstimo, uso, sentido.
Marafado - zangado, enraivecido.
Embelicar - corruptela de implicar.
Xitolo - cantina; loga; língua ronga.
Tsintsiva - fruto silvestre.
Cafunga - aborrecimento.
Mufana - miúdo; l. ronga.
Dar as inaiças - fazer birra, teimar.
Debo - Diabo.
Alexim - alcunha.
Falejar - falar de política.
Languçar - ver, observar; l. ronga.
Molanchão - cansado, mole.
Gavierras - dores, torções.
Lobolo - contrato/cerimónia de casamento; l. ronga.
Catralizar - cicatrizar.

Sobre o autor

Luís Carlos Patraquim (Maputo, 1953), jornalista, poeta, escritor e roteirista moçambicano, com diversificada obra publicada. Por exemplo, Monção (Edições 70 e Instituto Nacional do Livro e do Disco de Moçambique, 1980), A Inadiável Viagem (ed. Associação dos Escritores Moçambicanos, 1985), Mariscando Luas (Editora Vega, 1992), Lidemburgo Blues (Editorial Caminho, 1997), O Osso Côncavo e Outros Poemas (Lisboa, Editorial Caminho, 2005), Pneuma (Editorial Caminho, 2009) e A Canção de Zefanías Sforza (Porto Editora, 2010).